Aslan’s Meditations (5/11): Conhecer a Cristo

Autora: Hannah Dokupil

Bem vindos a parte 5 da nossa série Construindo Sobre a Rocha, baseada em 2 Pedro 1:5-8.

Para ver os artigos anteriores, clique aqui.

 

Por isso mesmo façam todo o [esforço] possível para juntar a bondade à que vocês têm. À bondade [virtude] juntem o conhecimento e ao conhecimento, o domínio próprio. Ao domínio próprio juntem a perseverança e à perseverança, a devoção a Deus. A essa devoção juntem a amizade cristã e à amizade cristã juntem o amor. Pois são essas as qualidades que vocês precisam ter. Se vocês as tiverem e fizerem com que elas aumentem, serão cada vez mais ativos e produzirão muita coisa boa como resultado do conhecimento que vocês têm do nosso Senhor Jesus Cristo.

O artigo dessa semana é mais curto, focado na palavra conhecimento. É realmente impressionante como Deus tem trabalhado coisas diferentes na minha vida como no artigo dessa semana.

Essa semana tive a oportunidade de viajar para fora do estado para competição de discursos e debates que durou quase a semana inteira.

Discursos e competições de debates são coisas estranhas. Você passa a maior parte da semana se preparando para isso – reescrevendo casos para debates, reescrevendo (ou rascunhando, mesmo) discursos, decorando discursos, e dormindo menos que as pessoas sãs. Então você é levado para dentro da algazarra de dezenas de pessoas com terno e gravata, palestras, debates, e menos tempo para dormir do que na semana anterior.

São o tipo de coisa que te colocam em interessantes estados de humor – hiper cansada, mas absolutamente maravilhada. Mas ao final de cada torneio, estou sempre em uma espécie de reverência com o quanto Deus tem trabalhado durante a semana. Neste torneio, no entanto, eu não fiz tão bem quanto eu esperava. Eu queria colocar em debate, e eu queria ficar entre os três melhores, e eu não consegui.

Mas uma coisa que me surpreendeu grandemente foi o significado do que eu estou aprendendo.  Ou seja – o conhecimento.

Como provavelmente acontece com qualquer coisa que você estude, às vezes é difícil ver “o todo” daquilo que você está estudando. …

Não fazer tão bem quanto tinha planejado me ensinou várias coisas. Primeiro, me ensinou que eu preciso trabalhar mais. Que, se eu quero mais, preciso trabalhar mais. Mas também me ensinou o valor do que estou estudando. Porque eu estou estudando isso. Eu não estou praticando discursos e escrevendo casos para debates para ganhar uma competição. Estou fazendo isso para anunciar o evangelho.

Eu não sei como colocar em palavras o poder e a maravilha do que Deus falou comigo essa semana – que em tudo que faço, meu objetivo é um só. Pregar a Cristo. Que eu possa pregar a Cristo dando uma palestra sobre a palavra recompensa. Que eu possa pregar a Cristo enquanto debato sobre a legitimidade de um governo.

Ele deve crescer, e eu, diminuir.

Assim, o que conhecimento tem a ver com isso, e porque vem depois de virtude?

Semana passada falamos sobre virtude, e como ela se torna a máscara através da qual vemos o mundo. Mas depois aprendemos a ver o mundo através dos olhos de Deus.

1 Pedro 3:15 diz: “Tenham no coração de vocês respeito por Cristo e o tratem como Senhor. Estejam sempre prontos para responder a qualquer pessoa que pedir que expliquem a esperança que vocês têm.’”

Veja. É algo para se ver o mundo de uma certa maneira. Para orientar a sua vida de uma forma que seja agradável a Deus. Mas depois disso, Deus nos chama para uma outra etapa. Para conhecer. Para estudar sua palavra, para saber no que você acredita e porque acredita, e então, anunciar isso.

Romanos 1:16 “Eu não me envergonho do evangelho…”

Leia de novo.

Porque não me envergonho.

Para mim, isso está dizendo para mim que em todos aspectos da minha vida, eu vivo para proclamar meu Salvador.

Mas eu não posso anunciar o que eu não sei – e eu não posso colocar uma máscara para olhar o mundo através dos olhos de que eu não conheço.

É por isso que o conhecimento vem depois na lista.

2 Timóteo 2:15 “Faça todo o possível para conseguir a completa aprovação de Deus, como um trabalhador que não se envergonha do seu trabalho, mas ensina corretamente a verdade do evangelho.”

Eu cresci em um lar cristão, e eu tenho estudo a Bíblia e seus versículos desde que me lembro. E muitas vezes eu me pego pensando “sou como um bom cristão. Olhem todos esses versos que conheço. Olhe o quanto eu sei sobre Jesus”.

O que?

A Bíblia proclama uma e outra vez que Deus, o Seu conhecimento e poder é infinito, insondável e inacessível. Ele é poderoso de maneira que não posso compreender.

No entanto, ele nos chama para sermos santos. Para seguí-lo, conhecê-lo.

Esta semana o artigo foi um pouco menor que nas outras, mas espero que ele o desafie a conhecer mais a Cristo.  Olhe para as coisas que você faz na sua vida e como pode anunciar a Cristo neles.

Conhecer a Cristo e viver para Ele não é necessariamente estar nas ruas conversando com pessoas sobre Cristo (a menos que seja chamado para isso, é claro). Viver Cristo é viver o conhecimento do que Cristo fez por você.

Os personagens de Nárnia – Edmundo, Lúcia, Caspian, Eustáquio, Ripchip, etc. Já reparou como esses personagens orientaram suas vidas de acordo com o que sabiam sobre Aslan. Eles vivem dessa forma. Seus conhecimentos de Aslan caracteriza como suas vidas parecem.

Será que Cristo caracteriza o que sua vida parece?

Fonte: http://www.aslanscountry.com/2011/02/aslans-meditations-know-christ/

Anúncios

Aslan’s Meditations (4/11): A Máscara que usamos

Autora: Hannah Dokupil

 

Bem vindos à nossa quarte parte da série Construindo sobre a Rocha, de 2 Pedro 1:5-8. Para ver os artigos anteriores, clique aqui.

Por isso mesmo façam todo o [esforço] possível para juntar a bondade à que vocês têm. À bondade [virtude] juntem o conhecimento e ao conhecimento, o domínio próprio. Ao domínio próprio juntem a perseverança e à perseverança, a devoção a Deus. A essa devoção juntem a amizade cristã e à amizade cristã juntem o amor. Pois são essas as qualidades que vocês precisam ter. Se vocês as tiverem e fizerem com que elas aumentem, serão cada vez mais ativos e produzirão muita coisa boa como resultado do conhecimento que vocês têm do nosso Senhor Jesus Cristo.

A devoção dessa semana é sobre a palavra virtude.

Estava pensando sobre isso algumas semanas atrás, e tentando decidir o que iria falar sobre ela. Quer dizer, você realmente não pode expandir mais que “virtude”, pode? Todos os outros componentes deste versículo se encaixam como “virtudes” – conhecimento, domínio-próprio, perseverança, devoção a Deus. então, porque adicionar “virtude”, se é justamente isso que as outras palavras são?

Aqui está uma rápida definição de virtude: a qualidade de fazer o que é certo e evitar o que é errado, excelência moral.

O que eu posso tirar da palavra “virtude”?  Eu acho que nesse verso, a palavra não está aplicada no sentido definido acima. Mas aqui está o que Deus tem trabalhado na minha vida na última semana, e isso pode ir contra a definição acima da palavra virtude, mas talvez Deus faça uma conexão na sua mente como fez comigo.

Virtude é, como eu disse, uma palavra bastante ampla. Mas eu acho que é exatamente por isso que vem depois da fé. Fé , como vimos, é a nossa fundação. É sobre ela que construimos. Mas a virtude está logo depois da fé. Porque? Virtude é uma espécie de parente.

Dependendo da sua visão de mundo, religião ou fé, a virtude terá um significado diferente para você. Para muitas religiões, a virtude é um trabalho piedoso do ritual sagrado, ou até mesmo a moral elevada pela qual você deve viver.

Como cristão, no entanto, a virtude é algo bom que Deus trabalha em nós que se torna uma base para a maneira como vemos o mundo. Sem fé é impossível agradar a Deus, mas Jesus também diz que você vai conhecer os cristãos pelos seus frutos. (Mateus 7:20)

Uma coisa em que meditei bastante semana passada foi sobre ídolos, as coisas que se colocam entre nós e Cristo.

Ao longo dos anos, tive vários entendimentos diferentes do que são ídolos. Quando eu era pequena, todos os ídolos eram coisas como Buda, ou o homem algre gordo que estava sentado de pernas cruzadas no chão, com velas em frente a ele em todos os restaurantes chineses que fomos.  Basicamente, era um “deus mal”, ou um “deus falso”.

Quando fiquei mais velha, aprendi que deuses são qualquer coisas que você coloca acima de Deus. Este não era um conceito difícil de entender, e na minha mente de dez anos de idade, não havia muito que eu poderia colocar acima de Deus. Deus era…apenas…isso.

Quanto mais eu amadureci e quanto mais eu aprendia sobre o mundo, mais ídolos eu encontrava competindo por minha adoração. Não eram apenas algo pelo qual se ficava obcecado. Não tem que ser algo que você colocou descaradamente na frente de Deus. De fato, os ídolos que eu encontrei na minha vida eram coisas que se tornaram inconscientemente à frente de Deus. Coisas que eu não reparei que tinham tomado o lugar de Deus – como amigos, família, e até mesmo a igreja.

Igreja? Fiquei horrorizada quando Deus mostrou isso em minha vida. Como poderia a igreja se tornar um ídolo? Mas Deus me mostrou que eu tinha colocado o “serví-lo” acima dele mesmo.

Oswald Chambers escreveu: cuidado com qualquer coisa que concorra com a sua fidelidade à Deus. O maior concorrente da verdadeira devoção a Jesus é o serviço que fazemos por ele. É mais fácil servir que entregar nossas vidas inteiramente a ele. Nós não somos enviados para fazer batalhas para Deus, mas sim para ser usados por Deus em suas batalhas. Será que estamos mais voltados para o serviço que para o próprio Deus?

Urgh. Essas são palavras incríveis…

Sexta-feira passada fui apresentada a um tipo diferente de ídolo. Ou melhor, uma outra maneira de ver os ídolos.

A mãe de um amigo meu estava lendo uma citação de um livro para mim. Eu não me lembro exatamente, mas aqui está um pouco do que consegui entender:

Coloque a mão no rosto e olhe através dos dedos. Agora vire a cabeça para ver o que está ao seu redor. Não importa o quanto você se vire, sua vista será sempre distorcida pelos seus dedos ficando no caminho.

O mesmo acontece com os ídolos. Tudo o que idolatramos se torna a máscara através da qual vemos o mundo. Aquilo que distorce nossa visão para ver as coisas de uma certa maneira.

Eu acho isso particularmente proeminente nos meus meios de comunição social / vida on line. Enquanto eu faço minhas tarefas diárias, algumas coisas que eu gosto uou acho interessante, eu imediantamento escrevo isso como um status no Facebook ou blog – porque o Facebook se tornou uma máscara através da qual eu vejo tudo.

Eu faço o mesmo com as pessoas. Às vezes eu penso em certas pessoas de quem eu gosto como se elas estivessem ao meu lado, ou imagino como reagiriam a uma determinada situação. Em vez de ver uma situação através dos olhos de Deus, eu passo a ver tudo através deles.

Esses são os ídolos.

imageEu estava conversando com um amigo algumas noites atrás, e surgiu o tema de querer que seja seja real para nós.  Querendo ouvir de Deus, para ouvi-lo falar conosco e nos mostrar sua vontade. Mas o que me impressionou foi … se eu tenho todas essas máscaras pelas quais vejo o mundo, como posso ouvir claramente o chamado de Deus? Ele não pode falar comigo quando estou filtrando tudo através das visões distorcidas que possuo. Uma vez ele disse que é preciso ver o mundo através de lentes cor-de-deus.

E é por isso que a virtude é depois da fé.

Fé é um salto enorme, mas depois que você pulou, é muito fácil voltar para trás, para se ter dúvidas. É por isso que a virtude é a próxima da lista.

Mike Donehey, o vocalista da Tenth Avenue North ( quem citarei uma vez ou outra nessa série), diz que seu verso favorito é Salmo 34:8 “Procure descobrir, por você mesmo, como Deus é bom.” Porque se você não fizer isso, nenhuma outra coisa fará sentido.

E no começo eu pensei que era um pouco estranho. Quer dizer, não há realmente versículos importantes como João 3:16 e Romanos 5:8? Mas o que ele disse é que, se não provar e ver que o Senhor é bom, nada do resto faz sentido.  Uma de suas frases mais famosas é “Nós não podemos aprender a viver para Deus, até que aprendamos a viver por causa de Deus”.

O que me impressionou foi a forma incrível como isso se relaciona com a imagem da máscara / ídolo borrando minha visão. Porque eu não posso fazer nada para Deus até que meu ídolo – minha máscara pela qual filtro tudo – seja o próprio Deus. Eu não posso viver para Deus, até que eu aprenda a viver por causa dele. Eu não posso entender qualquer coisa que Deus tenha feito por mim até que eu possa ter um vislumbre de quão poderoso e terrível e maravilhoso Deus é. Quão bom é um Deus que nos ama a menos que Ele seja um Deus bom? Eu não adoro a graça salvadora de Deus, eu adoro o Deus que me deu a graça salvadora.

imageEdmundo, em LFG, foi o que teve a visão distorcida pela Feiticeira Branca. É tão fácil perceber que Edmundo estava indo para o caminho do mal. Mas para Edmundo, não era bem assim. Ele tinha acabado de conhecer uma bonita rainha que lhe dava sua comida favorita, que o aquecia, e fez com que ele se sentisse bem consigo mesmo. E, é claro, dá pra ver claramente isso traduzido na forma como ele tratava seus irmãos. Ele estava ácido com Lúcia quando voltaram de Nárnia, e ainda traiu seus irmãos depois que retornaram para lá. 

imagePedro e Susana também tiveram visões de mundo e ideias que foram frustradas – frustrados por suas supostas ideias de realidade, do que foi possível e real.

Não foi até que todos entraram em Nárnia e começaram sua jornada à procura de Aslan, olhando para aquele cuja visão do mundo era verdade, que eles viram a luz.

E assim é a virtude. É uma qualidade ampla, mas que é tão importante por ser através dela que vemos o mundo. Nossas virtudes devem ser moldada por uma e apenas uma pessoa – que é Jesus Cristo. Meu desafio para você essa semana é olhar para a sua vida. Através de que coisas você vê o mundo. Facebook? Música? Entes queridos? Nárnia, mesmo? Somos chamados a colocar essas coisas para a morte.

 

Que tipo de máscara você usa?

 

Fonte: http://www.aslanscountry.com/2011/02/aslans-meditations-the-mask-we-wear/

Aslan’s Meditations – Apresentação

Autora: Hannah Dokupil

Textos Bíblicos conforme Nova Tradução na Linguagem de Hoje

 

 

Esta é a primeira de uma série de onze meditações na passagem de 2 Pedro 1:5-8, onde se lê:

Por isso mesmo façam todo o [esforço] possível para juntar a bondade à fé que vocês têm. À bondade juntem o conhecimento e ao conhecimento, o domínio próprio. Ao domínio próprio juntem a perseverança e à perseverança, a devoção a Deus. A essa devoção juntem a amizade cristã e à amizade cristã juntem o amor. Pois são essas as qualidades que vocês precisam ter. Se vocês as tiverem e fizerem com que elas aumentem, serão cada vez mais ativos e produzirão muita coisa boa como resultado do conhecimento que vocês têm do nosso Senhor Jesus Cristo.

Para começar, vamos olhar para o verso como um todo. Durante as próximas 11 semanas, vamos analisar cada valor (esforço, fé, bondade, conhecimento, etc) e olhar para cada um, individualmente, como ele se aplica ao anterior, e o que significa para nós, pessoalmente.

Serão artigos menores que o normal, mais isso significa que podemos publicar toda semana. Eu (Hannah/Tru) conduzirei esta série. Se funcionar, continuaremos – se não, concluiremos a série e tentaremos outra. Obrigado pela paciência.

Para mim, este versículo sempre foi uma longa lista de coisas para fazer. Depois de adicionar a bondade, adicionamos o conhecimento. Depois que fizermos isso, você precisa começar a trabalhar o domínio próprio. E depois disso, a perseverança … e assim por diante, e se você fizer todas essas coisas, você estará preparado para a vida.

Não sei quanto a vocês, mas eu não acho que isso esteja certo.

Porque, veja, o texto começa com as palavras “por isso mesmo” . Portanto, a pergunta natural é … Por isso o que? Porque estamos fazendo tudo isso? Vamos voltar um pouco, e olhar este versículo no contexto. O livro de 2 Pedro começa assim:

“…escrevo esta carta a vocês que, por causa da bondade do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, receberam uma fé tão preciosa como a nossa. Que a graça e a paz estejam com vocês e aumentem cada vez mais, por meio do conhecimento que vocês têm de Deus e de Jesus, o nosso Senhor! O poder de Deus nos tem dado tudo o que precisamos para viver uma vida que agrada a ele, por meio do conhecimento que temos daquele que nos chamou para tomar parte na sua própria glória e bondade. Desse modo ele nos tem dado os maravilhosos e preciosos dons que prometeu. Ele fez isso para que, por meio desses dons, nós escapássemos da imoralidade que os maus desejos trouxeram a este mundo e pudéssemos tomar parte na sua natureza divina.”

image

Para mim, o texto está falando sobre como, à luz da Graça de Deus, vivemos vidas caracterizadas pela fé, bondade, conhecimento, etc. Algo sobre o qual estive pensando muito ultimamente é sobre viver à luz da graça de Deus pela fé. É fácil ter fé quando se está entusiasmado com alguma coisa, quando você se torna cristão, quando você está em alta espiritual e vivendo para Cristo … mas a fé se torna uma coisa totalmente diferente quando você está perdido, confuso, e sem saber o que Deus está fazendo em sua vida. Mesmo assim prosseguimos porque, pelo poder divino de Deus, recebemos tudo o que precisamos para viver uma vida que agrada a ele, por meio do conhecimento que temos daquele que nos chamou para tomar parte na sua própria glória e bondade, porque ele nos tem dado os maravilhosos e preciosos dons que prometeu.

Certa vez ouvi um ditado que diz: “não se esqueça, na escuridão, que você viu a luz” – e acho que esse versículo se aplica a isso. Por causa da maravilhosa graça, amor e promessas que o Pai Celestial nos concedeu, é assim, que vivemos.

Edmundo, após ser salvo por Aslan, sempre encontrou tentações da Feiticeira Branca – tanto em Príncipe Caspian, quanto em A Viagem do Peregrino da Alvorada. Mas em cada um, notamos que a maneira como ele lida com essas tentações é sempre à luz do que Aslan fez por ele. Ele lembra e aprende com seus erros e com o que Aslan lhe ensinou.

image

Nós muitas vezes pensamos (ou pelo menos, eu me pego pensando) que nós somos salvos pela graça e então nós temos que fazer nossos caminhos com boas obras para o resto da vida! Pelo contrário – somos salvos pela graça e vivemos diariamente pela graça, e é por essa razão que nós adicionamos à nossa fé muitas coisas – mas essas coisas nós só podemos obter através da fé em Cristo.

Espero que vocês se juntem a mim nesta jornada.

Fonte: http://www.aslanscountry.com/2011/01/aslans-meditations-add-all-that/

O fim do mundo–VPA

Ripchip era a única pessoa a bordo, além de Lúcia, Edmundo e Drinian, que notara o Povo do Mar. Mergulhou mal vira o rei agitar o tridente, pois lhe parecera uma espécie de ameaça ou desafio, e quisera tirar o caso a limpo. Com a excitação de descobrir que a água não era salgada, esquecera-se do que ia fazer e, antes de lembrar-se do Povo do Mar, Drinian e Lúcia tinham pedido a ele que não contasse nada do que vira.

Navegaram a manhã toda em águas baixas, com o fundo do mar coberto de capim. Perto do meio-dia, Lúcia viu um grande cardume volteando por entre a erva. Comiam com vontade e moviam-se na mesma direção. “Como um rebanho de ovelhas”, pensou Lúcia. De repente viu, entre os peixes, uma donzela do mar, mais ou menos da sua idade, calma e solitária, com uma espécie de cajado na mão. Lúcia teve a certeza de que era uma pastora – uma pastora de peixes – e que o cardume era um rebanho pastando. Estavam perto da superfície. No instante em que a menina se elevava na água pouco funda, Lúcia inclinou-se na beira do navio. A menina olhou para cima e fixou atentamente o rosto de Lúcia. A pastora mergulhou depois e Lúcia nunca mais a viu. Não parecia assustada, nem zangada, como os outros habitantes do mar. Lúcia simpatizara com ela, e a simpatia parecera recíproca. Tinham ficado amigas num minuto. Seria difícil um novo encontro, mas se isto acontecesse correriam uma para outra de braços abertos.

O Peregrino ia sendo levado para o Oriente por um mar sem ondas, sem sombra de vento ou de espuma na quilha. A luz era cada vez mais brilhante. Ninguém dormia ou comia, mas tiravam do mar baldes de água brilhante, mais forte do que o vinho e mais úmida e líquida do que a água comum, bebendo-a em grandes goles, em silêncio.

Dois marinheiros, que começaram a viagem já com certa idade, iam ficando cada vez mais novos. Todos a bordo estavam muito alegres e animados, mas uma animação silenciosa. Falavam às vezes, mas apenas por murmúrios. Apossara-se deles a placidez daquele mar derradeiro.

Um dia Caspian perguntou a Drinian:

– O que está vendo aí em frente?

– Tudo branco.

– É também o que vejo. Não faço idéia do que seja.

– Se estivéssemos numa latitude alta, diria que era gelo. Mas aqui não pode ser. Em todo o caso, acho melhor pôr os homens ao remo e agüentar o barco contra a corrente. Não podemos ir contra aquilo com esta velocidade.

Começaram a navegar lentamente. A brancura não desvendou seu mistério quando se aproximaram. Se era uma terra, devia ser uma terra muito estranha, pois parecia tão macia quanto a água e no mesmo nível desta.

Perto, Drinian virou o navio para o sul, de modo que ficasse com ele atravessado na corrente, e remou um pouco ao longo da orla branca de espuma. Descobriram que a corrente tinha apenas uns vinte metros de largura e que o resto do mar estava tão calmo quanto um lago. A tripulação alegrou-se imensamente com isso, pois todos pensavam que seria bem difícil a viagem de regresso ao país de Ramandu, remando contra a corrente durante o caminho todo.

Isso explicava por que a pastora desaparecera tão rapidamente. Não estava na corrente; se estivesse, teria se deslocado para leste com a mesma velocidade do navio. Mas ninguém conseguira ainda compreender o que era a coisa branca. Baixaram o bote e resolveram investigar. Os que ficaram a bordo do Peregrino viram o bote cortar pelo meio da brancura e ouviram as vozes dos tripulantes na água em calmaria. Houve uma pausa, enquanto Rinelfo, na proa do bote, lançava o prumo. Depois regressaram.

Apinharam-se todos na amurada, curiosos:

– São lírios! – gritou Rinelfo. – Como num tanque de jardim.

Lúcia ergueu os braços úmidos, cheios de pétalas brancas e de largas folhas espalmadas.

– Qual é a profundidade, Rinelfo? – perguntou Drinian.

– Aí é que está, capitão. Ainda é muito fundo.

– Não podem ser lírios, pelo menos não aquilo que chamamos de lírios – resmungou Eustáquio.

Provavelmente não eram, mas pareciam. Conferenciaram e lançaram o Peregrino na corrente, começando a deslizar para leste, pelo Lago dos Lírios ou Mar de Prata, e aí começou a parte mais estranha da viagem. O oceano largo que haviam deixado nada mais era do que uma estreita fita azul perdendo-se no horizonte.

O mar parecia o Ártico e, se os olhos não tivessem se tornado tão agudos como os das águias, seria impossível suportar a visão daquela brancura, especialmente de manhã cedo. E a brancura, às tardes, fazia durar mais a luz do dia. Os lírios pareciam não ter fim. Dias e dias, elevava-se daquelas léguas de flores um odor que Lúcia achava quase impossível descrever: doce, sim, mas não estonteante, nem extremamente perfumado, um odor fresco, selvagem, solitário. Parecia entrar no cérebro e dar a sensação de que se pode galgar montanhas ou brigar com elefantes. Dizia:

– Sinto que não posso mais agüentar isso e, no entanto, não quero que acabe.

Fizeram muitas sondagens, mas só alguns dias mais tarde a água se tornou menos funda. A profundidade foi então diminuindo. Até que um dia tiveram de sair da corrente e avançar a passo de caracol para sondarem o caminho por onde seguiam. Tornou-se claro que o Peregrino não podia navegar mais para o Oriente, e só devido a manobras hábeis conseguiram evitar que encalhasse.

– Desçam o bote – gritou Caspian. – Depois chamem os homens cá para cima.

– Que vai fazer? – perguntou Eustáquio a Edmundo em voz baixa. – Ele está com uma expressão esquisita.

– Acho que estamos todos com a mesma expressão – respondeu Edmundo.

Juntaram-se a Caspian na popa, e toda a tripulação reuniu-se na base da escada para ouvir a palavra do rei.

– Amigos – disse Caspian. – Chegamos ao fim da nossa missão. Encontramos os sete fidalgos e, como Sir Ripchip jurou não voltar, sem dúvida que acharão acordados os fidalgos da ilha de Ramandu. Entrego-lhe, lorde Drinian, este navio, com a recomendação de navegarem com a maior velocidade possível para Nárnia e de não pararem na Ilha da Água da Morte. Recomende a Trumpkin, meu regente, que dê a todos os meus companheiros de viagem as recompensas que lhes prometi. São bem merecidas. Se eu nunca mais voltar, é meu desejo que o regente, o Mestre Cornelius, Caça-trufas, o Texugo, e o lorde Drinian escolham um rei para Nárnia.

– Senhor – interrompeu Drinian –, vai abdicar?

– Vou com Ripchip ver o Fim do Mundo.

Um murmúrio abafado de desagrado brotou entre os marinheiros.

– Levaremos o bote – disse Caspian. – Não precisam dele nestes mares tão calmos e podem fazer outro na terra de Ramandu.

– Caspian – disse Edmundo, rápida e gravemente –, não pode fazer isso!

– Não pode, senhor, não pode! – confirmou Drinian.

– Não posso? – disse Caspian, com dureza, parecendo por um instante seu tio Miraz.

– Perdão, Majestade – disse Rinelfo, lá embaixo no convés –, mas se algum de nós fizesse o mesmo isto se chamaria desertar.

– Você está abusando demais dos seus grandes serviços, Rinelfo – disse Caspian.

– Senhor, ele tem razão – disse Drinian.

– Pela juba de Aslam! Achava que eram todos meus súditos e não meus chefes!

– Não sou seu súdito – falou Edmundo. – E também sou de opinião de que não pode fazer isso.

– Outra vez não pode! – exclamou Caspian. – Afinal, o que querem dizer com não pode?

– Se me permite, Majestade – interveio Ripchip, curvando-se numa profunda reverência –, queremos dizer que não fará. Não pode lançar-se em aventuras como qualquer um. Se Vossa Majestade não nos atender, os homens mais fiéis ver-se-ão obrigados a desarmá-lo e prendê-lo, até que recobre o bom senso.

– De acordo – disse Edmundo. – Como Ulisses quando quis chegar perto das sereias.

A mão de Caspian já segurava a espada quando Lúcia disse:

– Prometeu à filha de Ramandu que voltaria… Caspian deteve-se. Depois gritou para todo o navio:

– Ganharam! A questão está encerrada. Voltaremos todos. Puxem outra vez o bote.

– Senhor – disse Ripchip –, não voltaremos todos. Como já expliquei antes…

– Silêncio! – trovejou Caspian. -Já recebi minhas lições. Não há ninguém que faça calar esse rato?

– Vossa Majestade prometeu ser um bom rei para todos os Animais Falantes de Nárnia – disse Ripchip.

– Para os Animais Falantes, sim. Não para os animais que falam o tempo todo.

Precipitou-se pela escada enraivecido, batendo com a porta do camarote. Mais tarde, deram com ele completamente mudado. Estava pálido e tinha lágrimas nos olhos.

– Não valeu a pena ter-me irritado tanto. Aslam falou comigo. Não quero dizer que esteve aqui, nem caberia no meu camarote. Mas aquela cabeça de leão ali na parede tomou vida e falou comigo. Foi terrível com aqueles olhos. Não estava muito zangado, apenas a princípio um pouco severo. Foi horrível de qualquer modo. Disse… Oh! Não podia ter dito coisa que doesse mais! Vocês vão continuar: Rip, Edmundo, Lúcia, Eustáquio. Tenho de voltar, sozinho. Haverá coisa pior do que isso?

– Meu bom Caspian – disse Lúcia –, você sabia que mais cedo ou mais tarde teríamos de voltar para o nosso mundo…

– Mas nunca pensei que fosse tão cedo – suspirou Caspian.

– Vai sentir-se melhor quando estiver na terra de Ramandu – disse a garota.

Caspian animou-se um pouco mais, porém a separação era dura para ambas as partes e não insisto em descrevê-la.

Cerca de duas horas mais tarde, bem aprovisionados (apesar de acharem que não precisariam comer ou beber), e levando a bordo o bote de Ripchip, o bote maior afastou-se do Peregrino pelo tapete de lírios.

O Peregrino desfraldou todas as suas bandeiras e dependurou todos os escudos, em honra à partida dos amigos. Antes de perdê-lo de vista, viram-no voltar-se e dirigir-se lentamente para o Ocidente.

Lúcia derramou algumas lágrimas, mas não sentiu tanto quanto você pode pensar. A luz, o silêncio, o odor inebriante do Mar de Prata, a própria solidão eram muito emocionantes.

Não precisavam remar, pois a corrente os impelia continuamente. Nenhum deles comeu ou bebeu. Durante toda aquela noite e no dia seguinte foram arrastados para o Oriente. Na manhã do terceiro dia – aquela claridade seria insuportável para nós, mesmo com óculos escuros – viram a maravilha. Era como se entre eles e o céu se erguesse uma parede cinzento-esverdeada, tremente, vaporosa.

Depois nasceu o sol, e seus primeiros raios, vistos através da parede, transformaram-se num deslumbrante arco-íris. Compreenderam que a parede era de fato uma enorme onda caindo sem cessar, sempre no mesmo lugar, e produzindo a mesma sensação de quando se olha da beira de uma cachoeira. Parecia ter seiscentos metros de altura, e a corrente os fazia deslizar rapidamente na direção dela.

Fortalecidos pelas águas do Mar Derradeiro, agora podiam fitar o sol nascente e distinguir coisas além dele. A oriente, além do sol, viam uma cadeia de montanhas, tão altas que seus cumes não eram visíveis. Deviam normalmente estar cobertas de gelo, mas eram verdes e quentes, com cascatas e florestas.

De súbito soprou uma brisa, franjando de espuma o alto da onda e enrugando a quietude das águas. Durou um segundo só, mas nenhuma das crianças jamais se esqueceu. Trouxe-lhes ao mesmo tempo um aroma e um som musical. Edmundo e Eustáquio nunca mais quiseram tocar no assunto. Lúcia apenas podia articular:

– Era de cortar o coração.

– Por quê? – perguntei eu. – Era assim tão triste?

– Triste nada!

Nenhum dos que se encontravam no bote duvidava de estar vendo, além do Fim do Mundo, a terra de Aslam.

No mesmo momento, com um ruído cavo, o bote encalhou. Não havia fundura suficiente.

– Daqui em diante – falou Ripchip – continuo sozinho.

Nem sequer tentaram impedi-lo, pois sentiam que parecia estar tudo destinado de antemão ou que já acontecera anteriormente. Ajudaram-no a descer o bote pequenino. Então, puxou a espada:

– Não preciso mais dela! – E lançou-a para o mar de lírios. Ao cair, ficou virada para cima, com o punho aparecendo sobre a água. Despediu-se deles, tentando parecer triste, mas estremecia de felicidade. Lúcia, pela primeira e última vez, fez o que sempre desejou fazer: tomou Rip nos braços e o acariciou. Depois, depressa, o rato pulou para o botezinho e saiu remando, ajudado pela corrente, muito escuro entre o branco dos lírios. O bote foi andando cada vez mais rápido, até que entrou triunfalmente por uma onda. Durante um escasso segundo viram Ripchip no topo da onda, depois desapareceu. Desde então ninguém mais ouviu nada sobre Ripchip, o Rato. Acredito que tenha chegado são e salvo ao país de Aslam e que lá vive até hoje.

Quando o sol nasceu, desvaneceu-se a visão das montanhas. As crianças saíram do bote e começaram a patinhar para o sul, com a parede de água à esquerda. Não sabiam por que fizeram assim; era o destino. Apesar de a bordo do Peregrino se sentirem muito crescidos, agora tinham a sensação contrária e davam-se as mãos entre os lírios.

Nunca se sentiram tão cansados. A água estava morna e era cada vez menos funda. Por fim, caminhavam na areia e depois na relva – por uma extensa planície de relva rasteira e bela, que se estendia em todas as direções, quase no mesmo nível do Mar de Prata.

Como sempre acontece em uma planura sem árvores, parecia que o céu se juntava com a relva, lá longe. Quando avançaram mais, tiveram a estranha sensação de que, pelo menos ali, o céu descia de fato e unia-se à terra – em uma parede muito azul, muito brilhante, mas real e concreta, parecendo vidro. Depois tiveram a certeza total. Estavam agora muito perto. Entre eles e a base do céu havia algo tão branco que, até mesmo com seus olhos de águia, dificilmente poderiam fitar. Continuaram e viram que era um cordeiro.

– Venham almoçar – disse o Cordeiro na sua voz doce e meiga.

Notaram que ardia sobre a relva uma fogueira, na qual se fritava peixe. Sentaram-se e comeram, sentindo fome pela primeira vez desde muitos dias. E aquela comida era a melhor de todas as que haviam provado.

– Por favor, Cordeiro – disse Lúcia –, é este o caminho para o país de Aslam?

– Para vocês, não – respondeu o Cordeiro. – Para vocês, o caminho de Aslam está no seu próprio mundo.

– No nosso mundo também há uma entrada para o país de Aslam? – perguntou Edmundo.

– Em todos os mundos há um caminho para o meu país – falou o Cordeiro. E, enquanto ele falava, sua brancura de neve transformou-se em ouro quente, modificando-se também sua forma. E ali estava o próprio Aslam, erguendo-se acima deles e irradiando luz de sua juba.

– Aslam! – exclamou Lúcia. – Ensine para nós como poderemos entrar no seu país partindo do nosso mundo.

– Irei ensinando pouco a pouco. Não direi se é longe ou perto. Só direi que fica do lado de lá de um rio. Mas nada temam, pois sou eu o grande Construtor da Ponte. Venham. Vou abrir uma porta no céu para enviá-los ao mundo de vocês.

– Por favor, Aslam – disse Lúcia –, antes de partirmos, pode dizer-nos quando voltaremos a Nárnia? Por favor, gostaria que não demorasse…

– Minha querida – respondeu Aslam muito docemente –, você e seu irmão não voltarão mais a Nárnia.

– Aslam! – exclamaram ambos, entristecidos.

– Já são muito crescidos. Têm de chegar mais perto do próprio mundo em que vivem.

– Nosso mundo é Nárnia – soluçou Lúcia. – Como poderemos viver sem vê-lo?

– Você há de encontrar-me, querida – disse Aslam.

– Está também em nosso mundo? – perguntou Edmundo.

– Estou. Mas tenho outro nome. Têm de aprender a conhecer-me por esse nome. Foi por isso que os levei a Nárnia, para que, conhecendo-me um pouco, venham a conhecer-me melhor.

– E Eustáquio voltará lá? – indagou Lúcia.

– Criança! – disse Aslam. – Para que deseja saber mais? Venha, vou abrir a porta no céu.

No mesmo instante, abriu-se uma fenda na parede azul, como se uma cortina fosse rasgada, e uma luz impressionante brotou do lado de lá do céu, e sentiram a juba e um beijo de Aslam na testa. E encontraram-se no quarto dos fundos da casa da tia Alberta.

Só falta falar de duas coisas. Uma: Caspian e os seus homens chegaram a salvo à Ilha da Estrela, onde os quatro fidalgos já tinham acordado. Foram todos para Nárnia, e Caspian casou-se com a filha de Ramandu, que se tornou uma grande rainha, mãe e avó de grandes reis. Outra: de volta ao nosso mundo, toda gente começou a dizer que Eustáquio estava melhorando muito e que não parecia o mesmo rapaz. Todos gostaram disso, menos a tia Alberta. Ela achava que Eustáquio se tornara um garoto muito comum e enfadonho, talvez devido à influência dos primos.

Fim do Vol. V

A “conversão” de Eutáquio

Olhei e vi a última coisa que esperava ver: um enorme leão avançando para mim. E era estranho porque, apesar de não haver lua, por onde o leão passava havia luar.

Foi chegando, chegando. E eu, apavorado. Você talvez pense que eu, sendo um dragão, poderia derrubar a fera com a maior facilidade. Mas não era esse tipo de medo. Não temia que me comesse, mas tinha medo dele… não sei se está entendendo o que quero dizer… Chegou pertinho de mim e me olhou nos olhos. Fechei os meus, mas não adiantou nada, porque ele me disse que o seguisse…

– Falava?

– Agora que você está me perguntando, não sei mais. Mas, de qualquer maneira, dizia coisas. E eu sabia que tinha de fazer o que me dizia, porque me levantei e o segui. Levou-me por um caminho muito comprido, para o interior das montanhas. E o halo sempre lá envolvendo-o. Finalmente chegamos ao alto de uma montanha que eu nunca vira antes, no cimo da qual havia um jardim. No meio do jardim havia uma nascente de água. Vi que era uma nascente porque a água brotava do fundo, mas era muito maior do que a maioria das nascentes – parecia uma grande piscina redonda, para a qual se descia em degraus de mármore. Nunca tinha visto água tão clara e achei que se me banhasse ali talvez passasse a dor na pata. Mas o leão me disse para tirar a roupa primeiro. Para dizer a verdade, não sei se falou em voz alta ou não. Ia responder que não tinha roupa, quando me lembrei que os dragões são, de certo modo, parecidos com as serpentes, e estas largam a pele. “Sem dúvida alguma é o que ele quer”, pensei.

Assim, comecei a esfregar-me, e as escamas começaram a cair de todos os lados. Raspei ainda mais fundo e, em vez de caírem as escamas, começou a cair a pele toda, inteirinha, como depois de uma doença ou como a casca de uma banana. Num minuto, ou dois, fiquei sem pele. Estava lá no chão, meio repugnante. Era uma sensação maravilhosa. Comecei a descer à fonte para o banho. Quando ia enfiando os pés na água, vi que estavam rugosos e cheios de escamas como antes. “Está bem”, pensei, “estou vendo que tenho outra camada debaixo da primeira e também tenho de tirá-la”. Esfreguei-me de novo no chão e mais uma vez a pele se descolou e saiu; deixei-a então ao lado da outra e desci de novo para o banho. E aí aconteceu exatamente a mesma coisa. Pensava: “Deus do céu! Quantas peles terei de despir?” Como estava louco para molhar a pata, esfreguei-me pela terceira vez e tirei uma terceira pele. Mas ao olhar-me na água vi que estava na mesma. Então o leão disse (mas não sei se falou): “Eu tiro a sua pele”. Tinha muito medo daquelas garras, mas, ao mesmo tempo, estava louco para ver-me livre daquilo. Por isso me deitei de costas e deixei que ele tirasse a minha pele. A primeira unhada que me deu foi tão funda que julguei ter me atingido o coração. E quando começou a tirar-me a pele senti a pior dor da minha vida. A única coisa que me fazia agüentar era o prazer de sentir que me tirava a pele. É como quem tira um espinho de um lugar dolorido. Dói pra valer, mas é bom ver o espinho sair.

– Estou entendendo – disse Edmundo.

– Tirou-me aquela coisa horrível, como eu achava que tinha feito das outras vezes, e lá estava ela sobre a relva, muito mais dura e escura do que as outras. E ali estava eu também, macio e delicado como um frango depenado e muito menor do que antes. Nessa altura agarrou-me – não gostei muito, pois estava todo sensível sem a pele – e atirou-me dentro da água. A princípio ardeu muito, mas em seguida foi uma delícia. Quando comecei a nadar, reparei que a dor do braço havia desaparecido completamente. Compreendi a razão. Tinha voltado a ser gente. Você vai me achar um cretino se disser o que senti quando vi os meus braços. Não são mais musculosos do que os de Caspian, eu sei que não são muito musculosos, nem se podem comparar com os de Caspian, mas morri de alegria ao vê-los. Depois de certo tempo, o leão me tirou da água e vestiu-me.

– Como?… Com as patas?

– Não me lembro muito bem. Sei lá, mas me vestiu com uma roupa nova, esta aqui. É por isso que eu digo: acho que foi um sonho.

– Não, não foi sonho, não – disse Edmundo.

– Por quê?

– Primeiro: a roupa nova serve de prova. Segundo: você deixou de ser dragão… Acho que você viu Aslam.

– Aslam! – exclamou Eustáquio. -Já ouvi falar nesse nome uma porção de vezes, desde que estou no Peregrino. Tinha a impressão – não sei por quê – de que o odiava. Mas eu odiava tudo. Aliás, quero pedir-lhe desculpas. Acho que me comportei muito mal.

– Não tem a menor importância. Cá para nós, você foi menos chato do que eu na minha primeira viagem a Nárnia. Você apenas foi um pouco boboca, mas eu banquei o traidor.

– Bem, então não se fala mais nisso. Mas… quem é Aslam? Você o conhece?

– Ele, pelo menos, me conhece. É o grande Leão, filho do Imperador de Além-mar. Salvou a mim e a Nárnia. Nós todos o vimos. Lúcia sempre o vê. Pode ser que tenhamos chegado ao país de Aslam.

Nenhum dos dois falou durante algum tempo. Desaparecera a última estrela. Não viam o sol, mas sabiam que este surgia, pois tanto o céu quanto a baía em frente se tingiam de cor-de-rosa.

Edmundo ou Eustáquio: qual o pior erro?

Após ter sido curado por Aslam, Eustáquio se encontrou primeiramente com Edmundo e lhe contou o ocorrido. O encontro dos dois personagens foi proposital para Lewis, os dois garotos tinham histórias parecidas, tiveram suas vidas transformadas em Nárnia e era importante que naquele momento só quem realmente experimentou da redenção de Aslam poderia compreender o outro.

Eustáquio estava constrangido pelo que tinha feito anteriormente e pediu desculpas a Edmundo, mas ele lhe respondeu:

— Não tem a menor importância. Cá entre nós, você foi menos chato do que eu na minha primeira viagem a Nárnia. Você apenas foi um pouco boboca, mas eu banquei o traidor.

Estamos então diante de dois personagens de temperamento difícil, que deram trabalho aos outros e levaram um belo susto – o diálogo do traidor com o boboca. Se passaram, de certa forma, como vilões da história… MAS, o que muda tudo, é que tiveram sua história transformada.

Não podemos julgá-los de forma alguma pelos seus atos. A história deles teve começo, meio e fim. Por sorte o fim de um não foi morrer na Mesa de Pedra e o do outro não foi morrer como um dragão guardião de um tesouro.

Para Nárnia e para Aslam, não importa o que fizemos, mas o que somos hoje. Cada um precisou aprender de uma forma, alguns deram mais trabalho, outros já aprenderam facilmente, como foi com Lúcia. O importante é que Aslam está no controle, mesmo quando enfeitiçados por ilhas mágicas ou pelos nossos próprios equívocos, ele sempre nos socorre.

O pior erro não existe, existe sim o grande acerto! E depois de tudo o que passou, Eustáquio acertou muito, tenha a certeza.

Sérgio Fernandes
Publicitário, criador do fã-clube Mundo Nárnia e escritor do livro Manual da Viagem do Peregrino da Alvorada. E-mail: falecom@sergiofernandes.com.br

Fonte: http://www.mundonarnia.com/portal/edmundo-ou-eustaquio-qual-o-pior-erro.html