JotaPêAh!

Aslan’s Meditation (2/11): Rocha Sólida

Autora: Hannah Dokupil

Textos Bíblicos conforme Nova Tradução na Linguagem de Hoje

 

Esta é a segunda parte, de onze, da nossa série sobre 2 Pedro 1:5-8.

Por isso mesmo façam todo o [esforço] possível para juntar a bondade à fé que vocês têm. À bondade juntem o conhecimento e ao conhecimento, o domínio próprio. Ao domínio próprio juntem a perseverança e à perseverança, a devoção a Deus. A essa devoção juntem a amizade cristã e à amizade cristã juntem o amor. Pois são essas as qualidades que vocês precisam ter. Se vocês as tiverem e fizerem com que elas aumentem, serão cada vez mais ativos e produzirão muita coisa boa como resultado do conhecimento que vocês têm do nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Nesta parte, vamos olhar para a primeira qualidade listada: a fé.

Há uma razão para a fé estar em primeiro lugar na lista. Em Hebreus diz que sem fé ninguém pode agradar a Deus, porque quem vai a ele precisa crer que ele existe e que recompensa os que procuram conhecê-lo melhor. Hebreus 11:6.

Isso é muito poderoso. Esse versículo diz que sem fé é impossível agradar a Deus. IMPOSSÍVEL.

Fé é a nossa fundação, é o que permanece verdadeiro, quando nada mais é. Você pode olhar para todas as outras qualidades listadas – a bondade, o conhecimento, o domínio próprio, a perseverança, a devoção a Deus – todas são grandes qualidades, mas você não pode reter nenhuma delas.

Fé… fé é fácil quando você sente. É fácil ter fé em Deus quando você o vê agindo. Mas o que não é tão fácil é ter fé quando você não a sente – mesmo sendo o centro da fé – acreditar, mesmo quando você não vê.

Eu já passei por momento na minha vida quando não senti Deus. Eu não o vejo agindo e não sinto que esteja adorando, e não importa o que eu faça, é como se eu estive fazendo sozinha.

De fato, a semana passada esteve provavelmente na lista das semanas mais “pela fé” que eu experimentei.

Lembro de uma frase de Elizabeth Elliot que diz: “Fé nao é um sentimento. É uma ação, uma escolha voluntária.”

Só porque eu não sinto Deus, não quer dizer que ele não esteja comigo. Mas ele está,  e é por isso que eu coloquei minha fé nele, dizendo: “Deus, eu não sinto sua presença agora, mas eu te vi agindo no passado, e eu sei que você está comigo.”

Um sermão na minha igreja foi particularmente inpactante, e eu nunca esqueci. A premissa era “não se esqueça, na escuridão, que você viu a luz”.

Quando a sua fé é abalada, quando você não pode ver, a coisa mais importante é se lembrar como Deus falou com você na luz. Nunca, jamais esqueça uma circunstância em que você viu Deus.

Mesmo em Hebreus 11:1, por definição, a fé é a “certeza de que vamos receber as coisas que esperamos e a prova de que existem coisas que não podemos ver.”

Esperança é uma palavra maravilhosa, não acha? É uma palavra cheia de… bem, esperança. É incrível o que a pesperctiva de esperança fará até mesmo com a mais terrível das circunstâncias, e este verso diz que a fé é a certeza de que vamos receber as coisas que esperamos.

Mas, o que é esperança, mesmo?

Romanos 8:25 diz: “Pois foi por meio da esperança que fomos salvos. Mas, se já estamos vendo aquilo que esperamos, então isso não é mais uma esperança. Pois quem é que fica esperando por alguma coisa que está vendo? Porém, se estamos esperando alguma coisa que ainda não podemos ver, então esperamos com paciência.”

Uau! Isso é poderoso – para mim, é um lembrete constante de esperar com alegria em Cristo, quando eu não entendo, por causa da esperança que eu tenho em meu Senhor e Salvador.

Essa é a nossa fundação, o alicerce para tudo em nossa vida cristã.

Lúcia sempre foi uma das minhas personagens favoritas na série de Nárnia, por várias razões – uma delas é a fé. De todos os Pevensie, Lúcia é a que mantém uma fé inabalável em Aslan, de que ele é Todo-Poderoso e que virá sempre.

À medida que crescemos, a fé se torna cada vez mais difícil – porque quanto mais aprendemos sobre o mundo, mais ele tenta nos distrair de Cristo. Eu vejo isso acontecendo com a Lúcia, a mais notável nos filmes.

Em LFG, é fácil para Lúcia ter fé em Aslan. Ele é grande, forte, poderoso, e ela está vivendo em uma espécie de mundo de sonho. Nárnia foi uma nova descoberta,  ela era uma pequena criança, e esse foi apenas o começo de suas aventuras lá. Eu vejo muita da minha infância na Lúcia de LFG. Despreocupada, feliz, mas forte, fiel – que caracteriza muito da infância de crianças que cresceram na proteção de lares cristãos. Sem saber muito sobre o mundo, mas vivendo a fé simples, infantil.

Em Príncipe Caspian, ela está um pouco mais velha. E embora ela não tenha dúvidas sobre Aslan e sua fé não vacile, ela está relutante em abandonar os outros e seguir Aslan. Ela acredita que ele está lá, mas estava com muito medo de segui-lo sozinha. Eu vejo isso em mim mesma quando eu estava no ensino médio: tentando me ajustar, mas ainda tentando agarrar minha fé e aquilo em que acredito. Conhecendo um pouco mais do mundo, e de repetente, hesitante ou não, você quer que o mundo saiba sobre sua fé.

E finalmente, em Peregrino da Alvorada, vemos Lúcia tendo oportunidade de colocar em prática aquilo em que ela depositou sua fé. Ela tentou duramente com as tentações para se tornar bonita, ainda acreditando em Aslan com toda sua força, mas lutando para equilibrar sua crença com como exatamente deve viver as etapas de sua vida.

Que tipo de fé somos chamados a ter?

Mateus 10:16 diz: “Escutem! Eu estou mandando vocês como ovelhas para o meio de lobos. Sejam espertos como as cobras e sem maldade como as pombas.”

Somos chamados a ter uma fé simples, infantil, mas com a sabedoria de quem é mais velho e mais sábio.

Mas nós não podemos passar todo esse texto falando sobre fé sem falar sobre o objeto de nossa fé. Até agora falamos sobre ter fé em Jesus Cristo – mas eu acho beleza no fato de que nossa fé é somente em Jesus Cristo.

Cristo é nosso rei. É neste Rei que colocamos nossa fé. É dele que nossa esperança vem. Não é apenas um pensamento mesquinho, ideia, ou algo que uma vez ouvimos falar. O Deus do universo, o criador de tudo, te abraça com ternura na palma de Sua mão – é o único em quem depositamos essa confiança.

O meu desejo para você essa semana é que você dê aquele salto de fé. Mantenha as preciosas verdades que você sabe, que você viu na luz. Nós acreditamos em um Salvador que é muito mais bonito, poderoso e amoroso que qualquer coisa neste mundo. Ele é o objeto de nossa fé, a certeza da nossa esperança, aquele em quem podemos confiar totalmente, em cada aspecto de nosso vida.

Fonte: http://www.aslanscountry.com/2011/01/aslans-meditations-solid-rock/

Anúncios
Deixe um comentário »

O fim do mundo–VPA

Ripchip era a única pessoa a bordo, além de Lúcia, Edmundo e Drinian, que notara o Povo do Mar. Mergulhou mal vira o rei agitar o tridente, pois lhe parecera uma espécie de ameaça ou desafio, e quisera tirar o caso a limpo. Com a excitação de descobrir que a água não era salgada, esquecera-se do que ia fazer e, antes de lembrar-se do Povo do Mar, Drinian e Lúcia tinham pedido a ele que não contasse nada do que vira.

Navegaram a manhã toda em águas baixas, com o fundo do mar coberto de capim. Perto do meio-dia, Lúcia viu um grande cardume volteando por entre a erva. Comiam com vontade e moviam-se na mesma direção. “Como um rebanho de ovelhas”, pensou Lúcia. De repente viu, entre os peixes, uma donzela do mar, mais ou menos da sua idade, calma e solitária, com uma espécie de cajado na mão. Lúcia teve a certeza de que era uma pastora – uma pastora de peixes – e que o cardume era um rebanho pastando. Estavam perto da superfície. No instante em que a menina se elevava na água pouco funda, Lúcia inclinou-se na beira do navio. A menina olhou para cima e fixou atentamente o rosto de Lúcia. A pastora mergulhou depois e Lúcia nunca mais a viu. Não parecia assustada, nem zangada, como os outros habitantes do mar. Lúcia simpatizara com ela, e a simpatia parecera recíproca. Tinham ficado amigas num minuto. Seria difícil um novo encontro, mas se isto acontecesse correriam uma para outra de braços abertos.

O Peregrino ia sendo levado para o Oriente por um mar sem ondas, sem sombra de vento ou de espuma na quilha. A luz era cada vez mais brilhante. Ninguém dormia ou comia, mas tiravam do mar baldes de água brilhante, mais forte do que o vinho e mais úmida e líquida do que a água comum, bebendo-a em grandes goles, em silêncio.

Dois marinheiros, que começaram a viagem já com certa idade, iam ficando cada vez mais novos. Todos a bordo estavam muito alegres e animados, mas uma animação silenciosa. Falavam às vezes, mas apenas por murmúrios. Apossara-se deles a placidez daquele mar derradeiro.

Um dia Caspian perguntou a Drinian:

– O que está vendo aí em frente?

– Tudo branco.

– É também o que vejo. Não faço idéia do que seja.

– Se estivéssemos numa latitude alta, diria que era gelo. Mas aqui não pode ser. Em todo o caso, acho melhor pôr os homens ao remo e agüentar o barco contra a corrente. Não podemos ir contra aquilo com esta velocidade.

Começaram a navegar lentamente. A brancura não desvendou seu mistério quando se aproximaram. Se era uma terra, devia ser uma terra muito estranha, pois parecia tão macia quanto a água e no mesmo nível desta.

Perto, Drinian virou o navio para o sul, de modo que ficasse com ele atravessado na corrente, e remou um pouco ao longo da orla branca de espuma. Descobriram que a corrente tinha apenas uns vinte metros de largura e que o resto do mar estava tão calmo quanto um lago. A tripulação alegrou-se imensamente com isso, pois todos pensavam que seria bem difícil a viagem de regresso ao país de Ramandu, remando contra a corrente durante o caminho todo.

Isso explicava por que a pastora desaparecera tão rapidamente. Não estava na corrente; se estivesse, teria se deslocado para leste com a mesma velocidade do navio. Mas ninguém conseguira ainda compreender o que era a coisa branca. Baixaram o bote e resolveram investigar. Os que ficaram a bordo do Peregrino viram o bote cortar pelo meio da brancura e ouviram as vozes dos tripulantes na água em calmaria. Houve uma pausa, enquanto Rinelfo, na proa do bote, lançava o prumo. Depois regressaram.

Apinharam-se todos na amurada, curiosos:

– São lírios! – gritou Rinelfo. – Como num tanque de jardim.

Lúcia ergueu os braços úmidos, cheios de pétalas brancas e de largas folhas espalmadas.

– Qual é a profundidade, Rinelfo? – perguntou Drinian.

– Aí é que está, capitão. Ainda é muito fundo.

– Não podem ser lírios, pelo menos não aquilo que chamamos de lírios – resmungou Eustáquio.

Provavelmente não eram, mas pareciam. Conferenciaram e lançaram o Peregrino na corrente, começando a deslizar para leste, pelo Lago dos Lírios ou Mar de Prata, e aí começou a parte mais estranha da viagem. O oceano largo que haviam deixado nada mais era do que uma estreita fita azul perdendo-se no horizonte.

O mar parecia o Ártico e, se os olhos não tivessem se tornado tão agudos como os das águias, seria impossível suportar a visão daquela brancura, especialmente de manhã cedo. E a brancura, às tardes, fazia durar mais a luz do dia. Os lírios pareciam não ter fim. Dias e dias, elevava-se daquelas léguas de flores um odor que Lúcia achava quase impossível descrever: doce, sim, mas não estonteante, nem extremamente perfumado, um odor fresco, selvagem, solitário. Parecia entrar no cérebro e dar a sensação de que se pode galgar montanhas ou brigar com elefantes. Dizia:

– Sinto que não posso mais agüentar isso e, no entanto, não quero que acabe.

Fizeram muitas sondagens, mas só alguns dias mais tarde a água se tornou menos funda. A profundidade foi então diminuindo. Até que um dia tiveram de sair da corrente e avançar a passo de caracol para sondarem o caminho por onde seguiam. Tornou-se claro que o Peregrino não podia navegar mais para o Oriente, e só devido a manobras hábeis conseguiram evitar que encalhasse.

– Desçam o bote – gritou Caspian. – Depois chamem os homens cá para cima.

– Que vai fazer? – perguntou Eustáquio a Edmundo em voz baixa. – Ele está com uma expressão esquisita.

– Acho que estamos todos com a mesma expressão – respondeu Edmundo.

Juntaram-se a Caspian na popa, e toda a tripulação reuniu-se na base da escada para ouvir a palavra do rei.

– Amigos – disse Caspian. – Chegamos ao fim da nossa missão. Encontramos os sete fidalgos e, como Sir Ripchip jurou não voltar, sem dúvida que acharão acordados os fidalgos da ilha de Ramandu. Entrego-lhe, lorde Drinian, este navio, com a recomendação de navegarem com a maior velocidade possível para Nárnia e de não pararem na Ilha da Água da Morte. Recomende a Trumpkin, meu regente, que dê a todos os meus companheiros de viagem as recompensas que lhes prometi. São bem merecidas. Se eu nunca mais voltar, é meu desejo que o regente, o Mestre Cornelius, Caça-trufas, o Texugo, e o lorde Drinian escolham um rei para Nárnia.

– Senhor – interrompeu Drinian –, vai abdicar?

– Vou com Ripchip ver o Fim do Mundo.

Um murmúrio abafado de desagrado brotou entre os marinheiros.

– Levaremos o bote – disse Caspian. – Não precisam dele nestes mares tão calmos e podem fazer outro na terra de Ramandu.

– Caspian – disse Edmundo, rápida e gravemente –, não pode fazer isso!

– Não pode, senhor, não pode! – confirmou Drinian.

– Não posso? – disse Caspian, com dureza, parecendo por um instante seu tio Miraz.

– Perdão, Majestade – disse Rinelfo, lá embaixo no convés –, mas se algum de nós fizesse o mesmo isto se chamaria desertar.

– Você está abusando demais dos seus grandes serviços, Rinelfo – disse Caspian.

– Senhor, ele tem razão – disse Drinian.

– Pela juba de Aslam! Achava que eram todos meus súditos e não meus chefes!

– Não sou seu súdito – falou Edmundo. – E também sou de opinião de que não pode fazer isso.

– Outra vez não pode! – exclamou Caspian. – Afinal, o que querem dizer com não pode?

– Se me permite, Majestade – interveio Ripchip, curvando-se numa profunda reverência –, queremos dizer que não fará. Não pode lançar-se em aventuras como qualquer um. Se Vossa Majestade não nos atender, os homens mais fiéis ver-se-ão obrigados a desarmá-lo e prendê-lo, até que recobre o bom senso.

– De acordo – disse Edmundo. – Como Ulisses quando quis chegar perto das sereias.

A mão de Caspian já segurava a espada quando Lúcia disse:

– Prometeu à filha de Ramandu que voltaria… Caspian deteve-se. Depois gritou para todo o navio:

– Ganharam! A questão está encerrada. Voltaremos todos. Puxem outra vez o bote.

– Senhor – disse Ripchip –, não voltaremos todos. Como já expliquei antes…

– Silêncio! – trovejou Caspian. -Já recebi minhas lições. Não há ninguém que faça calar esse rato?

– Vossa Majestade prometeu ser um bom rei para todos os Animais Falantes de Nárnia – disse Ripchip.

– Para os Animais Falantes, sim. Não para os animais que falam o tempo todo.

Precipitou-se pela escada enraivecido, batendo com a porta do camarote. Mais tarde, deram com ele completamente mudado. Estava pálido e tinha lágrimas nos olhos.

– Não valeu a pena ter-me irritado tanto. Aslam falou comigo. Não quero dizer que esteve aqui, nem caberia no meu camarote. Mas aquela cabeça de leão ali na parede tomou vida e falou comigo. Foi terrível com aqueles olhos. Não estava muito zangado, apenas a princípio um pouco severo. Foi horrível de qualquer modo. Disse… Oh! Não podia ter dito coisa que doesse mais! Vocês vão continuar: Rip, Edmundo, Lúcia, Eustáquio. Tenho de voltar, sozinho. Haverá coisa pior do que isso?

– Meu bom Caspian – disse Lúcia –, você sabia que mais cedo ou mais tarde teríamos de voltar para o nosso mundo…

– Mas nunca pensei que fosse tão cedo – suspirou Caspian.

– Vai sentir-se melhor quando estiver na terra de Ramandu – disse a garota.

Caspian animou-se um pouco mais, porém a separação era dura para ambas as partes e não insisto em descrevê-la.

Cerca de duas horas mais tarde, bem aprovisionados (apesar de acharem que não precisariam comer ou beber), e levando a bordo o bote de Ripchip, o bote maior afastou-se do Peregrino pelo tapete de lírios.

O Peregrino desfraldou todas as suas bandeiras e dependurou todos os escudos, em honra à partida dos amigos. Antes de perdê-lo de vista, viram-no voltar-se e dirigir-se lentamente para o Ocidente.

Lúcia derramou algumas lágrimas, mas não sentiu tanto quanto você pode pensar. A luz, o silêncio, o odor inebriante do Mar de Prata, a própria solidão eram muito emocionantes.

Não precisavam remar, pois a corrente os impelia continuamente. Nenhum deles comeu ou bebeu. Durante toda aquela noite e no dia seguinte foram arrastados para o Oriente. Na manhã do terceiro dia – aquela claridade seria insuportável para nós, mesmo com óculos escuros – viram a maravilha. Era como se entre eles e o céu se erguesse uma parede cinzento-esverdeada, tremente, vaporosa.

Depois nasceu o sol, e seus primeiros raios, vistos através da parede, transformaram-se num deslumbrante arco-íris. Compreenderam que a parede era de fato uma enorme onda caindo sem cessar, sempre no mesmo lugar, e produzindo a mesma sensação de quando se olha da beira de uma cachoeira. Parecia ter seiscentos metros de altura, e a corrente os fazia deslizar rapidamente na direção dela.

Fortalecidos pelas águas do Mar Derradeiro, agora podiam fitar o sol nascente e distinguir coisas além dele. A oriente, além do sol, viam uma cadeia de montanhas, tão altas que seus cumes não eram visíveis. Deviam normalmente estar cobertas de gelo, mas eram verdes e quentes, com cascatas e florestas.

De súbito soprou uma brisa, franjando de espuma o alto da onda e enrugando a quietude das águas. Durou um segundo só, mas nenhuma das crianças jamais se esqueceu. Trouxe-lhes ao mesmo tempo um aroma e um som musical. Edmundo e Eustáquio nunca mais quiseram tocar no assunto. Lúcia apenas podia articular:

– Era de cortar o coração.

– Por quê? – perguntei eu. – Era assim tão triste?

– Triste nada!

Nenhum dos que se encontravam no bote duvidava de estar vendo, além do Fim do Mundo, a terra de Aslam.

No mesmo momento, com um ruído cavo, o bote encalhou. Não havia fundura suficiente.

– Daqui em diante – falou Ripchip – continuo sozinho.

Nem sequer tentaram impedi-lo, pois sentiam que parecia estar tudo destinado de antemão ou que já acontecera anteriormente. Ajudaram-no a descer o bote pequenino. Então, puxou a espada:

– Não preciso mais dela! – E lançou-a para o mar de lírios. Ao cair, ficou virada para cima, com o punho aparecendo sobre a água. Despediu-se deles, tentando parecer triste, mas estremecia de felicidade. Lúcia, pela primeira e última vez, fez o que sempre desejou fazer: tomou Rip nos braços e o acariciou. Depois, depressa, o rato pulou para o botezinho e saiu remando, ajudado pela corrente, muito escuro entre o branco dos lírios. O bote foi andando cada vez mais rápido, até que entrou triunfalmente por uma onda. Durante um escasso segundo viram Ripchip no topo da onda, depois desapareceu. Desde então ninguém mais ouviu nada sobre Ripchip, o Rato. Acredito que tenha chegado são e salvo ao país de Aslam e que lá vive até hoje.

Quando o sol nasceu, desvaneceu-se a visão das montanhas. As crianças saíram do bote e começaram a patinhar para o sul, com a parede de água à esquerda. Não sabiam por que fizeram assim; era o destino. Apesar de a bordo do Peregrino se sentirem muito crescidos, agora tinham a sensação contrária e davam-se as mãos entre os lírios.

Nunca se sentiram tão cansados. A água estava morna e era cada vez menos funda. Por fim, caminhavam na areia e depois na relva – por uma extensa planície de relva rasteira e bela, que se estendia em todas as direções, quase no mesmo nível do Mar de Prata.

Como sempre acontece em uma planura sem árvores, parecia que o céu se juntava com a relva, lá longe. Quando avançaram mais, tiveram a estranha sensação de que, pelo menos ali, o céu descia de fato e unia-se à terra – em uma parede muito azul, muito brilhante, mas real e concreta, parecendo vidro. Depois tiveram a certeza total. Estavam agora muito perto. Entre eles e a base do céu havia algo tão branco que, até mesmo com seus olhos de águia, dificilmente poderiam fitar. Continuaram e viram que era um cordeiro.

– Venham almoçar – disse o Cordeiro na sua voz doce e meiga.

Notaram que ardia sobre a relva uma fogueira, na qual se fritava peixe. Sentaram-se e comeram, sentindo fome pela primeira vez desde muitos dias. E aquela comida era a melhor de todas as que haviam provado.

– Por favor, Cordeiro – disse Lúcia –, é este o caminho para o país de Aslam?

– Para vocês, não – respondeu o Cordeiro. – Para vocês, o caminho de Aslam está no seu próprio mundo.

– No nosso mundo também há uma entrada para o país de Aslam? – perguntou Edmundo.

– Em todos os mundos há um caminho para o meu país – falou o Cordeiro. E, enquanto ele falava, sua brancura de neve transformou-se em ouro quente, modificando-se também sua forma. E ali estava o próprio Aslam, erguendo-se acima deles e irradiando luz de sua juba.

– Aslam! – exclamou Lúcia. – Ensine para nós como poderemos entrar no seu país partindo do nosso mundo.

– Irei ensinando pouco a pouco. Não direi se é longe ou perto. Só direi que fica do lado de lá de um rio. Mas nada temam, pois sou eu o grande Construtor da Ponte. Venham. Vou abrir uma porta no céu para enviá-los ao mundo de vocês.

– Por favor, Aslam – disse Lúcia –, antes de partirmos, pode dizer-nos quando voltaremos a Nárnia? Por favor, gostaria que não demorasse…

– Minha querida – respondeu Aslam muito docemente –, você e seu irmão não voltarão mais a Nárnia.

– Aslam! – exclamaram ambos, entristecidos.

– Já são muito crescidos. Têm de chegar mais perto do próprio mundo em que vivem.

– Nosso mundo é Nárnia – soluçou Lúcia. – Como poderemos viver sem vê-lo?

– Você há de encontrar-me, querida – disse Aslam.

– Está também em nosso mundo? – perguntou Edmundo.

– Estou. Mas tenho outro nome. Têm de aprender a conhecer-me por esse nome. Foi por isso que os levei a Nárnia, para que, conhecendo-me um pouco, venham a conhecer-me melhor.

– E Eustáquio voltará lá? – indagou Lúcia.

– Criança! – disse Aslam. – Para que deseja saber mais? Venha, vou abrir a porta no céu.

No mesmo instante, abriu-se uma fenda na parede azul, como se uma cortina fosse rasgada, e uma luz impressionante brotou do lado de lá do céu, e sentiram a juba e um beijo de Aslam na testa. E encontraram-se no quarto dos fundos da casa da tia Alberta.

Só falta falar de duas coisas. Uma: Caspian e os seus homens chegaram a salvo à Ilha da Estrela, onde os quatro fidalgos já tinham acordado. Foram todos para Nárnia, e Caspian casou-se com a filha de Ramandu, que se tornou uma grande rainha, mãe e avó de grandes reis. Outra: de volta ao nosso mundo, toda gente começou a dizer que Eustáquio estava melhorando muito e que não parecia o mesmo rapaz. Todos gostaram disso, menos a tia Alberta. Ela achava que Eustáquio se tornara um garoto muito comum e enfadonho, talvez devido à influência dos primos.

Fim do Vol. V

Deixe um comentário »

A “conversão” de Eutáquio

Olhei e vi a última coisa que esperava ver: um enorme leão avançando para mim. E era estranho porque, apesar de não haver lua, por onde o leão passava havia luar.

Foi chegando, chegando. E eu, apavorado. Você talvez pense que eu, sendo um dragão, poderia derrubar a fera com a maior facilidade. Mas não era esse tipo de medo. Não temia que me comesse, mas tinha medo dele… não sei se está entendendo o que quero dizer… Chegou pertinho de mim e me olhou nos olhos. Fechei os meus, mas não adiantou nada, porque ele me disse que o seguisse…

– Falava?

– Agora que você está me perguntando, não sei mais. Mas, de qualquer maneira, dizia coisas. E eu sabia que tinha de fazer o que me dizia, porque me levantei e o segui. Levou-me por um caminho muito comprido, para o interior das montanhas. E o halo sempre lá envolvendo-o. Finalmente chegamos ao alto de uma montanha que eu nunca vira antes, no cimo da qual havia um jardim. No meio do jardim havia uma nascente de água. Vi que era uma nascente porque a água brotava do fundo, mas era muito maior do que a maioria das nascentes – parecia uma grande piscina redonda, para a qual se descia em degraus de mármore. Nunca tinha visto água tão clara e achei que se me banhasse ali talvez passasse a dor na pata. Mas o leão me disse para tirar a roupa primeiro. Para dizer a verdade, não sei se falou em voz alta ou não. Ia responder que não tinha roupa, quando me lembrei que os dragões são, de certo modo, parecidos com as serpentes, e estas largam a pele. “Sem dúvida alguma é o que ele quer”, pensei.

Assim, comecei a esfregar-me, e as escamas começaram a cair de todos os lados. Raspei ainda mais fundo e, em vez de caírem as escamas, começou a cair a pele toda, inteirinha, como depois de uma doença ou como a casca de uma banana. Num minuto, ou dois, fiquei sem pele. Estava lá no chão, meio repugnante. Era uma sensação maravilhosa. Comecei a descer à fonte para o banho. Quando ia enfiando os pés na água, vi que estavam rugosos e cheios de escamas como antes. “Está bem”, pensei, “estou vendo que tenho outra camada debaixo da primeira e também tenho de tirá-la”. Esfreguei-me de novo no chão e mais uma vez a pele se descolou e saiu; deixei-a então ao lado da outra e desci de novo para o banho. E aí aconteceu exatamente a mesma coisa. Pensava: “Deus do céu! Quantas peles terei de despir?” Como estava louco para molhar a pata, esfreguei-me pela terceira vez e tirei uma terceira pele. Mas ao olhar-me na água vi que estava na mesma. Então o leão disse (mas não sei se falou): “Eu tiro a sua pele”. Tinha muito medo daquelas garras, mas, ao mesmo tempo, estava louco para ver-me livre daquilo. Por isso me deitei de costas e deixei que ele tirasse a minha pele. A primeira unhada que me deu foi tão funda que julguei ter me atingido o coração. E quando começou a tirar-me a pele senti a pior dor da minha vida. A única coisa que me fazia agüentar era o prazer de sentir que me tirava a pele. É como quem tira um espinho de um lugar dolorido. Dói pra valer, mas é bom ver o espinho sair.

– Estou entendendo – disse Edmundo.

– Tirou-me aquela coisa horrível, como eu achava que tinha feito das outras vezes, e lá estava ela sobre a relva, muito mais dura e escura do que as outras. E ali estava eu também, macio e delicado como um frango depenado e muito menor do que antes. Nessa altura agarrou-me – não gostei muito, pois estava todo sensível sem a pele – e atirou-me dentro da água. A princípio ardeu muito, mas em seguida foi uma delícia. Quando comecei a nadar, reparei que a dor do braço havia desaparecido completamente. Compreendi a razão. Tinha voltado a ser gente. Você vai me achar um cretino se disser o que senti quando vi os meus braços. Não são mais musculosos do que os de Caspian, eu sei que não são muito musculosos, nem se podem comparar com os de Caspian, mas morri de alegria ao vê-los. Depois de certo tempo, o leão me tirou da água e vestiu-me.

– Como?… Com as patas?

– Não me lembro muito bem. Sei lá, mas me vestiu com uma roupa nova, esta aqui. É por isso que eu digo: acho que foi um sonho.

– Não, não foi sonho, não – disse Edmundo.

– Por quê?

– Primeiro: a roupa nova serve de prova. Segundo: você deixou de ser dragão… Acho que você viu Aslam.

– Aslam! – exclamou Eustáquio. -Já ouvi falar nesse nome uma porção de vezes, desde que estou no Peregrino. Tinha a impressão – não sei por quê – de que o odiava. Mas eu odiava tudo. Aliás, quero pedir-lhe desculpas. Acho que me comportei muito mal.

– Não tem a menor importância. Cá para nós, você foi menos chato do que eu na minha primeira viagem a Nárnia. Você apenas foi um pouco boboca, mas eu banquei o traidor.

– Bem, então não se fala mais nisso. Mas… quem é Aslam? Você o conhece?

– Ele, pelo menos, me conhece. É o grande Leão, filho do Imperador de Além-mar. Salvou a mim e a Nárnia. Nós todos o vimos. Lúcia sempre o vê. Pode ser que tenhamos chegado ao país de Aslam.

Nenhum dos dois falou durante algum tempo. Desaparecera a última estrela. Não viam o sol, mas sabiam que este surgia, pois tanto o céu quanto a baía em frente se tingiam de cor-de-rosa.

Deixe um comentário »

Alerta sobre a existência de dragões fora de Nárnia

Cuidado: criaturas que cospem fogo não existem somente em Nárnia! Antes mesmo que Eustáquio tivesse se dado mal na Ilha do Dragão, o garoto já manifestava sintomas de “dragonisse”.

O malévolo primo era tão maldoso que sentia prazer em caçoar dos primos, fazia questão em irritá-los em seu período de hospedagem obrigatória em sua casa, os atacava com arrogância e palavras, em sua maioria, tão ofensivas e amargas que lhe saiam como chamas procurando algo a consumir.

Ser transformado em um dragão, para Eustáquio, não foi a grande novidade. Ao ver pelo reflexo o monstro que ele era, o maior choque foi perceber que já havia uma fera lá há mais tempo. Ele viu que sua forma de encarar a vida estava o deformando. E Aslam somente o curou depois dele passar dias na ilha reconhecendo os seus erros.

A lição de hoje: feche a boca e abra os olhos! Deixe esse fogo destruidor que sai de sua boca ser apagado. Não queime as pessoas ao seu redor com sua amargura. Se você está revoltado com algo, procure entender interiormente o que se passa antes de descontar nos outros. Aprenda a domesticar essa fera!

Sérgio Fernandes
Publicitário, criador do fã-clube Mundo Nárnia e escritor do livro Manual da Viagem do Peregrino da Alvorada. E-mail: falecom@sergiofernandes.com.br

Deixe um comentário »

Curiosidade matou o gato / transformou o preguiçoso em dragão

Eustáquio quis bancar o espertinho se escondendo na ilha para descansar enquanto o restante da tripulação do Peregrino trabalhava. De esperto, saiu de bobo! Ele foi longe o suficiente para não ser visto, mas não conseguiu ficar por aquilo mesmo, a curiosidade o fez ir mais longe e se perder no meio da ilha desconhecida. Lá encontrou um dragão morrendo e depois um tesouro. Tentou pegar o que podia, mesmo sem saber se realmente era um tesouro abandonado, e caiu no sono. Quando acordou, o garoto havia sido transformado em um dragão.

“Curiosidade matou o gato” – esse ditado popular pode ser adaptado para Eustáquio como “curiosidade transformou o preguiçoso em dragão”. Não bastasse a preguiça, o garoto deixou-se corromper pela curiosidade.

Ser curioso pode ser virtude ou pecado, dependendo da situação. Na maioria das vezes faz mal a quem fica “curiando” por aí, especialmente aonde não conhece.

A lição dele precisa chegar a nós como um aviso: cuidado com o excesso de curiosidade! Nada de ficar se metendo em ambientes estranhos. A maioria dos exemplos por aí confirmam o quanto é perigoso.

Sérgio Fernandes
Publicitário, criador do fã-clube Mundo Nárnia e escritor do livro Manual da Viagem do Peregrino da Alvorada.

E-mail: falecom@sergiofernandes.com.br

Não se esqueça de divulgar esta mensagem aos seus amigos no Twitter, Facebook e Orkut.

Visite MundoNarnia.com em: http://meu.mundonarnia.com/?xg_source=msg_mes_network

Deixe um comentário »

Dragões em Nárnia

Em uma das ilhas de A Viagem do Peregrino da Alvorada, o garoto Eustáquio encontra-se com um dragão morrendo e descobre um tesouro, provavelmente guardado pela criatura. Ele cai no sono e acorda transformado em um dragão. Somente com a ajuda de Aslam consegue voltar ao normal. Depois da aventura, os tripulantes do Peregrino da Alvorada consideram que o outro dragão, que não se sabia o motivo de sua morte, era o Lorde Octasiano.

O dragão é uma criatura presente nas mais diversas mitologias e até existem animais de verdade bem próximos à sua descrição, por exemplo o dragão-de-komodo. São descritos como um tipo de serpente de grande porte, com asas e outros atributos. O nome é de origem grega, drákon, que deriva do verbo derkomai, que significa “olhar” — por causa de seu papel na mitologia grega de vigiar tesouros. Aparece em lendas como a do herói Cadmo, com o dragão adormecido por Medeia para que Jasão pudesse roubar o tosão de ouro, e na história de Ládom, com o dragão de cem cabeças no Jardim das Hespérides que guardava os pomos de ouro.

A figura do dragão como guardião de um tesouro também faz parte da mitologia germânica e é encontrado na lenda de Beowulf. O poema épico conta que, cinquenta anos após a coroação dele como rei, um de seus servos rouba uma taça de um tesouro guardado por um dragão e a criatura ataca o reino. Beowulf e Wiglaf conseguem vencê-la, mas o rei acaba morrendo devido à gravidade das feridas do confronto.

Tolkien, amigo de Lewis, também se inspirou em dragões e tesouros para criar a história de O Hobbit, na qual Bilbo Bolseiro parte com seus amigos para recuperar o tesouro roubado pelo dragão Smaug.
Lendas sobre tesouros amaldiçoados são contadas desde os tempos dos faraós, sobre a invasão das tumbas sagradas. Na mitologia germânica, a mais famosa é a lenda dos Nibelungos, que conta a dramática história de uma família possuidora de um tesouro e um anel amaldiçoados. Essa lenda inspirou um ciclo de óperas épicas de Richard Wagner.

Sérgio Fernandes
Publicitário, criador do fã-clube Mundo Nárnia e escritor do livro Manual da Viagem do Peregrino da Alvorada. E-mail: falecom@sergiofernandes.com.br

Visite MundoNarnia.com em: http://meu.mundonarnia.com/?xg_source=msg_mes_network

Deixe um comentário »

Enfrentando o pior vilão no Peregrino da Alvorada

A Viagem do Peregrino da Alvorada é o único dos sete livros de As Crônicas de Nárnia que não possui um vilão definido. Nas outras histórias havia feiticeiras e tiranos que precisavam ser vencidos pelos nossos heróis. Porém, essa ausência colocada por C. S. Lewis tem um objetivo: mostrar ao leitor um vilão que existe e está mais próximo do que imaginamos, talvez o mais forte de todos, aquele que nos trai frequentemente, ou seja, NÓS MESMOS. 

Diariamente enfrentamos em nossa consciência o conflito entre os sentimentos e a razão. Entre seguir pelos impulsos ou regrá-los pela inteligência. Nossos heróis travaram lutas contra suas vaidades, precisaram entender os seus limites e rever atitudes.

Eustáquio é o principal exemplo de transformação de conduta apresentado nessa aventura. O garoto precisou transformar-se “acidentalmente” em uma criatura abominável para que percebesse o quão abominável era a sua mesquinhez e egoísmo.
Caspian e Edmundo se desentenderam levados pela cobiça na Ilha Queimada, tiveram a sorte de Aslam aparecer e os livrar do encantamento.

Bem próximo ao final da história, mesmo com tantas aventuras, Caspian queria mais e precisou deixar as suas vontades para retornar ao seu reino, ele tinha uma boa intenção em querer seguir para o Fim do Mundo, mas nem tudo o que queremos, mesmo sendo bom, é o que deve ser feito.

Eustáquio teve uma história diferente com Nárnia, ele não foi para cumprir uma profecia e travar uma luta contra Jadis como foi com os Pevensie. Aslam o levou para que aprendesse, para que fosse transformado e depois voltasse, em A Cadeira de Prata, como um herói.

Sérgio Fernandes
Publicitário, criador do fã-clube Mundo Nárnia
e escritor do livro Manual da Viagem do Peregrino da Alvorada.
E-mail: falecom@sergiofernandes.com.br
Deixe um comentário »

A mensagem cristã em A Viagem do Peregrino da Alvorada

C. S. Lewis incluiu em As Crônicas de Nárnia referências a diversas
histórias bíblicas, além, é claro, de construir os valores éticos e
morais com base em sua formação cristã. Ele criou personagens e alinhou
fatos que mostram claramente um interesse em falar de suas convicções.

Uma metáfora interessante ao Antigo Testamento em A Viagem do Peregrino
da Alvorada foi Ripchip ter se tornado para a história de Nárnia o que
foi Elias (1 Reis 17ss) para a Bíblia: possivelmente o único ser a
entrar no País de Aslam sem antes ter morrido. Elias também não morreu, a
Bíblia conta que foi levado por uma carruagem de fogo (2 Reis 2).

A mudança de caráter, já tratada por Lewis com Edmundo em O Leão, a
Feiticeira e o Guarda-roupa, é mais uma vez explorada com a história de
Eustáquio. Ela se aproxima do caminho de conversão ditada pelo Novo
Testamento, a partir de João Batista (Lucas 3). Eustáquio transformou-se
em um dragão “acidentalmente” ao tentar buscar o seu prazer indo
descansar escondido, sem pensar nos outros. João Batista pregava a
conversão pela caridade — em seus discursos até chamava as pessoas de
“raça de víboras” — e o sinal de conversão pública era o batismo. A cura
do garoto aconteceu pela intervenção de Aslam, que pediu que ele
passasse por um ritual — um batismo — para tirar a pele de dragão.
Eustáquio também lembra a história de Paulo de Tarso (Atos dos
Apóstolos, 9) que era um grande perseguidor dos cristãos e se converteu
após um encontro sobrenatural com Jesus, que lhe deixou cego, e precisou
da ajuda de um dos discípulos para ser curado. O garoto odiava Nárnia e
converteu-se em um dos heróis daquele mundo, com papel importante na
história de A Cadeira de Prata.

Ao falar em personagens, entretanto, o primeiro e mais importante a ser
lembrado é o leão Aslam. Não se pode negar que a forma como é incluído
nas histórias o coloca como a figura de Jesus Cristo. Ele é o redentor e
possui características de um ser divino: onipotente, onisciente e
onipresente. Vale lembrar que Lewis não o havia incluído no primeiro
esboço do livro O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa — foi a criação
deste personagem que trouxe alinhamento à história e o colocou como o
interventor para a solução dos dramas vividos em cada livro. Ele é o
único a aparecer nos sete livros da série.

Em A Viagem do Peregrino da Alvorada ele volta a aparecer em momentos
importantes, intervindo em alguma situação de socorro para a missão de
Caspian X. Sua presença é como luz que clareia a inteligência, como
aconteceu quando estavam enfeitiçados pela ganância na Ilha da Água da
Morte, quando lhes indicou a saída da Ilha Negra e quando avisou a
Caspian que não poderia abdicar do trono.

Dessa maneira particular de Aslam aparecer, em Príncipe Caspian Lúcia
descobre o dom de vê-lo enquanto os outros, transtornados pelas
tribulações, não conseguem. É uma situação muito parecida com a
narrativa bíblica sobre os fatos que ocorreram após a morte de Jesus,
quando os seus discípulos temiam o futuro do grupo. Jesus que não estava
mais morto, havia ressuscitado e apareceu primeiro à Maria Madalena
(Marcos 16,9). Em A Viagem do Peregrino da Alvorada as visões de Lúcia
acontecem com mais frequência.

A história da ressurreição de Jesus também é lembrada com a aparição
final de Aslam a Lúcia e Edmundo, como cordeiro. Ele os convidou a comer
e já tinha preparado sobre a relva uma fogueira com peixe. As crianças
não reconheceram que se tratava de Aslam e iniciaram um diálogo com o
cordeiro até que ele se revelou. Pedro, Tomé e Natanael (na história
contada na Bíbia em João 21) saíram para pescar, após dias reclusos com
medo, e encontraram Jesus na praia. Ele também os convidou a comer e
tinha preparado uma fogueira com peixe, só depois eles conseguem
perceber que era Ele.

O diálogo de despedida das crianças com Aslam define bem quem ele é e
qual seria o propósito de As Crônicas de Nárnia. Lúcia reclama que não
poderiam viver sem vê-lo e Aslam lhes consola dizendo que eles haveriam
de reencontrá-lo em seu mundo e diz: “Estou. Mas tenho outro nome. Têm
de aprender a conhecer-me por esse nome. Foi por isso que os levei a
Nárnia, para que, conhecendo-me um pouco, venham a conhecer-me melhor”.
Deste trecho podemos interpretar o caráter simbólico da série para o
ensino e interpretação da mensagem cristã.

(Trecho do livro
Manual da Viagem do Peregrino da Alvorada)

Sérgio Fernandes

Publicitário, criador do fã-clube Mundo Nárnia e escritor do livro Manual da Viagem do Peregrino da Alvorada. E-mail: falecom@sergiofernandes.com.br

3 comentários »

A donzela pastora

“Navegaram a manhã toda em águas baixas, com o fundo do mar coberto de
capim. Perto do meio-dia, Lúcia viu um grande cardume volteando por
entre a erva. Comiam com vontade e moviam-se na mesma direção. “Como um
rebanho de ovelhas”, pensou Lúcia. De repente viu, entre os peixes, uma
donzela do mar, mais ou menos da sua idade, calma e solitária, com uma
espécie de cajado na mão. Lúcia teve a certeza de que era uma pastora –
uma pastora de peixes e que o cardume era um rebanho pastando. Estavam
perto da superfície. No instante em que a menina se elevava na água
pouco funda, Lúcia inclinou-se na beira do navio. A menina olhou para
cima e fixou atentamente o rosto de Lúcia. A pastora mergulhou depois e
Lúcia nunca mais a viu. Não parecia assustada, nem zangada, como os
outros habitantes do mar. Lúcia simpatizara com ela, e a simpatia
parecera recíproca. Tinham ficado amigas num minuto. Seria difícil um
novo encontro, mas se isto acontecesse correriam uma para outra de
braços abertos.” (A Viagem do Peregrino da Alvorada, Capítulo 16)

No extremo Oriente, próximo ao País de Aslam, o navio Peregrino da
Alvorada navegou por cima do Povo do Mar. Eles são habitantes de uma
cidade construída em um monte dentro do Mar Derradeiro. Não usavam
roupas, sua pele era de tom marfim antigo e o cabelo púrpura escuro.
Tinham o costume de caçar nas florestas das profundezas.

Lúcia encontrou essa donzela pastora, que cuidava de um cardume de
peixes com um cajado nas mãos. O encontro foi rápido, mas a duas se
simpatizaram.

Existe uma provável inspiração de C. S. Lewis para a criação deste povo
com base no mito da Atlântida, de uma nação submersa, e no mito das
sereias. Lorde Drinian, inclusive, tem receios de que seus marinheiros
sejam enfeitiçados.

Já a donzela pastora poderia vir de uma história ouvida por Lewis
quando criança, de um mito originário de sua cidade natal, Belfast, na
Irlanda. Conta-se que uma jovem, chamada Liban, ficou presa com o seu
cão em uma caverna submarina durante um ano, após uma enchente que
aniquilou o seu povo. Ela rezou aos deuses que a transformassem em
peixe para que pudesse sair daquele lugar. E assim aconteceu: ela
tornou-se um salmão da cintura para baixo e o seu cão uma lontra.
Libian livrou-se da prisão, mas continuou como sereia por 300 anos, até
que encontrou um padre que a ouviu cantando e pediu que a tirasse da
água. Ele a ajudou, depois a batizou com o nome de Murgen e lhe deu a
escolha de viver mais 300 anos de vida ou entrar imediatamente no Céu.
Murgen escolheu a segunda opção. Mesmo sendo uma lenda, em alguns
almanaques antigos e no santoral católico irlandês aparecem referências
a Santa Murgen.

Fonte: MundoNarnia.com
 

Deixe um comentário »

Falando sobre YouTube – AS CRÔNICAS DE NÁRNIA: A VIAGEM DO PEREGRINO DA ALVORADA – TRAILER HD – …

Com legendas.

Citação

YouTube – AS CRÔNICAS DE NÁRNIA: A VIAGEM DO PEREGRINO DA ALVORADA – TRAILER HD – …
Nesta terceira parte, a bordo do navio Peregrino da Alvorada, Lúcia, Edmundo e primo Eustáquio ajudam a localizar sete lordes banidos do reino de Nárnia. Elenco: Will Poulter (Eustáquio), Ben Barnes, Georgie Henley, Skandar Keynes Direção: Michael Apted Estreia: 10/12…

 

Deixe um comentário »

A polêmica do trailer no MundoNarnia.com

Quem levou a sério o artigo que publicamos chamado “Dicas
para ver em primeira mão o trailer do Peregrino da Alvorada
” se deu
bem e realmente pode se dizer UM DOS PRIMEIROS DO MUNDO  a ver o
trailer do filme A Viagem do Peregrino da Alvorada. Houve confusão sobre
a data de estreia etc, porém acabamos vendo o trailer na dia que
inicialmente foi dita
aqui
: 16 de junho, 5 horas antes do lançamento oficial.

Hollywood fica bem longe do Brasil. Walden, Fox e Ben Barnes não são
brasileiros e tudo o que os fãs de As Crônicas de Nárnia recebem de
informação geralmente chega e acontece primeiro nos Estados Unidos.
Depois dá-lhe o Salem conectado 24 horas ao Google para traduzir
qualquer novidade com a tag #narnia.

Para o trailer iríamos seguir o caminho convencional: seria publicado
pela Fox/Walden à meia noite nos EUA, pelas 4h da madrugada estaria no
MundoNarnia.com. Essa era a informação que sabíamos por base no que
estava publicado nos sites americanos. Porém, fomos agraciados por uma
falha de comunicação das terras do Tio Sam. Não era oficial (pois não
recebemos alguma nota dizendo: é proibido), teoricamente o trailer
estava guardado a sete chaves, mas bastou recebermos uma newsletter, nos
cadastrarmos em um site da própria Walden, para nos enviarem o link
para download do trailer em HD.

Hum!? Não acredito! Isso mesmo, essa foi a mesma reação que um membro
de nossa equipe teve. Trêmulo, não acreditando no que estava
acontecendo, fez o que qualquer um faria: mandar o trailer para a
internet. Não por maldade, com intenção de quebrar a estratégia de
divulgação do filme, mas era a empolgação em repassar aos fãs aquele
tesouro. Além disso a lógica era: se estão distribuindo o trailer é
porque “pode”. E assim foi feito!

O trailer foi publicado pela primeira vez na internet pelo Mundo
Nárnia. Quem nos seguia no
Twitter
teve o privilégio de estar entre os primeiros a se
emocionar. Duas horas antes do lançamento nos Estados Unidos estávamos
com mais de 1.800 pessoas on-line ao mesmo tempo e só naquela madrugada
tivemos 37.753 pageviews. Dezenas de sites publicaram o nosso player com
o trailer, incluindo os principais sites de notícias sobre cinema no
Brasil e no exterior – até
no R7 o player do Mundo Nárnia apareceu
.

Quando deu meia noite nos Estados Unidos, o Brasil em todos os
sentidos estava adiantado. Ao notarem que o trailer havia vazado, a Fox
fez uma varredura na internet e descobriu a origem: um fã site
brasileiro chamado Mundo Nárnia. Um representante da Fox no Brasil fez
contato conosco e, com muita educação, nos perguntou como havíamos
conseguido o trailer e explicamos o ocorrido. Não houve nenhuma
advertência, apenas uma explicação de que realmente havia uma estratégia
e que houve falha de comunicação, de modo que aconteceu o deslize do
site que nos enviou o trailer.

(E pronto, não é questão também de procurarmos culpados. O trailer
está no ar e a divulgação segue com sucesso!)

Realmente, a relação com os fã clubes para as produtoras e
distribuidoras é algo delicado. Um fã clube é composto pelo público mais
cativo e dedicado, porém mais crítico. Eles estão sempre afoitos a
informações e chegam a estar mais adiantados que os próprios
responsáveis pelo “produto”. Até porque, enquanto uma empresa tem de
administrar este mais outros produtos importantes, a tal multidão de fãs
está de olho exclusivamente em um – basta ver o que aconteceu com Lost.
A internet rompe barreiras quanto à propagação de informação. No
entanto, é importante registrar aqui que amor nenhum de fã justifica a
utilização de meios ilícitos, como a pirataria.

Felizmente a Fox Film do Brasil é uma distribuidora inteligente e
sabe relacionar-se positivamente com essas situações. O contato feito
com o Mundo Nárnia foi muito positivo, até porque “não houve um culpado”
(o trailer vazou…). A partir desse contato pudemos estreitar ainda mais
os laços e saber o quanto um pode auxiliar o outro na divulgação de
Nárnia – assim como já vem acontecendo com a WMF Martins Fontes Editora
para a realização do Narnia Day e outros promoções.

A Fox Brasil está com um estratégia forte para o filme em dezembro,
teremos promoções, conteúdos especiais e uma bela pré-estreia. Em breve
divulgaremos aqui tudo o que aguarda os fãs do Brasil.

Não somos maiores que os donos dos direitos autoriais e temos o
compromisso em respeitá-los
, porém representamos um público
grandioso que une não só a adaptação de As Crônicas de Nárnia aos
cinemas, mas os livros e o autor C. S. Lewis. Estamos de plantão 24
horas, como porta-vozes desta multidão, fazendo tudo o que pudermos para
divulgar a mensagem de Nárnia. E somos gratos a todos os que estão
conosco e os que estão vindo, formando uma nação narniana.

Continuem no MundoNarnia.com pois neste mundo você tem a
garantia de estar com o que existe de mais completo e atualizado sobre
As Crônicas de Nárnia.

Por Nárnia e por Aslam!

Fonte:

Deixe um comentário »

Aslam e o mar

“Tão altas quanto o meu espírito.
Ainda que, talvez, tão pequenas quanto a minha estatura.
Por que não haveríamos de chegar ao extremo oriental do mundo?
Que poderíamos encontrar lá? Espero encontrar o próprio país de Aslam!
É sempre do Oriente, através do mar, que o Grande Leão vem encontrar-se conosco.

Onde o céu e o mar se encontram,
Onde as ondas se adoçam,
Não duvide, Ripchip,
Que no Leste absoluto está
Tudo o que procura encontrar.”

Ripchip, em As Crônicas de Nárnia – A Viagem do Peregrino da Alvorada.

Deixe um comentário »

%d blogueiros gostam disto: