JotaPêAh!

Do Querido Leitor: Ah, você quer minha opinião? Pois não. Opinarei.

em 29/09/2011 12:04:17

Fonte: http://noticias.r7.com/blogs/querido-leitor/2011/09/29/ah-voce-quer-minha-opiniao-pois-nao-opinarei/

 

Eu acho o brasileiro médio muito machista. Eu acho a mulher brasileira bem machista também. Por ‘machista’ eu quero dizer uma pessoa que, no fundo, acredita que o homem é superior à mulher e que tem mais direitos do que ela apenas por ser homem. Que tem a última palavra, o poder de decisão. Um homem machista é aquele que acha que pode  ‘deixar’ ou ‘não deixar’ que uma mulher faça coisas, como se ele fosse dono dela, seja a mãe, a mulher, filha. A culpa deve ser de todos nós, que perpetuamos esse machismo através das gerações, da mãe que sonha que o filho encontre uma boa moça que o obedeça (?) até a mulher que briga com os filhos para que deixem o melhor bife para o papai. Fazer isso por AMOR é legal. Fazer isso por submissão e medo, não. O papai trabalha, a mamãe trabalha e todos merecem bons bifes.

Na minha opinião todos os seres humanos têm os mesmos direitos, independente de sua orientação sexual, por exemplo.

A orientação sexual (bem como a prática do sexo) também é de foro íntimo. Não é da conta de ninguém e nem deveria interferir em nada, nem interessar a ninguém que não os envolvidos e beneficiados diretos.

Se você está morrendo e um médico vai atender você para salvar sua vida tenho CERTEZA que você não vai se importar se ele é gay, por exemplo. Assim como tenho certeza que se a vida do seu filho depender de uma pediatra você não vai se importar se ela for lésbica. Ou judia. Ou umbandista. Ou arremessadora de martelo e albina. Uso esses exemplos extremos apenas para chamar sua atenção, porque a orientação sexual de qualquer pessoa não deveria importar em nenhum momento social, seja na padaria comprando seu pão, tendo aulas de ikebana ou na reunião com seu colega de trabalho, uma vez que ela não INTERFERE na sua vida social ou profissional.

Mesmo porque, ninguém SABE NADA sobre a vida íntima de ninguém. E nem tem que saber. Essa tela onde você lê esse texto agora. Quem fez a tela? Foi um jamaicano hetero? Um chinês bi? Uma brasileira virgem? Dá pra ler o texto? Então pronto. Se a pessoa trabalhou e produziu, não foi escravizada, não cometeu nenhum crime, você comprou o aparelho e está lendo, beleza.

Essa curiosidade patológica que temos pela vida sexual dos artistas, por exemplo, mostra apenas como somos analfabetos sexuais. É como se não conhecêssemos todas as possibilidades e nuances e, a cada nova letra descoberta, fizéssemos um desnecessário auê. Como? Fulano é G? A outra é L? Ele é B? Brincou que aquela pessoa é T? Se essas novidades servirem para ampliar seu leque de possibilidade, perfeito. Caso contrário, deixe a vida do outro pra lá. Eventualmente posso até ouvir e pensar, ah, que surpresa, não sabia que ele é gay. Então ele é gay, ok. Próximo assunto.

Lembro de uma palestra que dei num hotel, num encontro de fim de semana para empresários. Falei uma hora sobre minha carreira em mídia. Na hora de abrir para perguntas, todo mundo só queria saber se a apresentadora com quem trabalhei era gay ou não. Broxante. Eu queria muito saber o que eles fariam com esse tipo de informação. Provavelmente usariam-na para sentirem-se superiores. Ou ‘normais’.

Outro assunto que não tem relação com nada e não deveria ser de interesse social é a vida sexual das pessoas. De onde foi que o povo brasieiro tirou essa associação de que toda mulher politizada, que briga por seus direitos é mal comida? Que feminista não transa? Primeiro que no tempo da faculdade quando a gente fazia movimento político, todo mundo comia todo mundo. Eu diria até que as mulheres mais politizadas têm uma vida sexual muito mais intensa do que as que não tem ideologia nenhuma, só pra chocar. #prontochoquei.

Também não entendo esse conceito totalmente sem noção de que mulher feia não faz sexo. Faz e com homens de todos os tipos, inclusive os feios. E chatos. E carecas. E lindos. Tem que ser muito limitado pra ligar beleza com prática sexual. O sexo existe e se manifesta em quase todos os seres vivos e, embora para muitos o estímulo visual seja um fator importante, ele não é de-ter-mi-nan-te.  Ou você acha que todas as pessoas que se masturbam nesse mundo acham que suas mãos são lindas?

Aqui vou parar e opinar também sobre a beleza e aproveitar pra voltar ao machismo. Todo mundo quer ser bonito ou melhorar o visual. Porque a imagem corresponde a uma parcela importante do ‘julgamento do primeiro encontro’, por exemplo. A imagem faz parte do processo seletivo de escolha de parceiros em ambientes sociais. Mas é UM dos muitos elementos, que inclui afinidades, texturas, ideologias, etc. etc. etc.

Eu acho bacana a gente investir na beleza, mas acho TERRÍVEL e MACHISTA a atitude de buscar essa beleza APENAS para atender a um MERCADO de consumo machista. Se a mulher quer botar silicone, fazer lipo, botar botox e tudo mais, que o faça porque ela quer e não pra ‘segurar o marido’, ‘impedir que o parceiro tenha amante’ ou para ‘competir com a amiga de vestiário da academia’. Seria mais bacana se ela fizesse isso por si mesma. E se ela quiser fazer por seu macho também, que faça, eu só estou dando A MINHA OPINIÃO, LEMBRA? Que também é mutante e influenciada por vivências.

Opinião é como casa, de vez em quanto tem que mudar pra outra.

Agora vou falar da campanha da Hope com a Gisele.

A Gisele é linda. É brasileira. Gostosa, rica, perfeita. E a Hope faz calcinhas. E, como todo cliente, contrata uma agência de propaganda para fazer campanhas que vendam esses produtos. A propaganda tem muito dinheiro e pouco tempo. Então ela tem que comunicar cortando caminhos. A gente clica Alt+Tab no telcado, a propaganda usa clichês. O clichê da sogra. O clichê da mulher que bate o carro do marido. O clichê da mulher que gasta todo o cartão de crédito dele. Enfim, a propaganda RETRATA a sociedade, reduzindo tipos verdadeiros. A mulher que bota a lingerie pra contar pro marido que fez merda existe assim como existe a mãe que faz o bolo pro filho antes de pedir pra ele visitar a vó. Existe tanto quanto o funcionário que traz uma lembrancinha pro chefe quando volta da viagem. TUDO ISSO EXISTE. Se você acha isso errado e machista, então temos que consertar nossa sociedade, para que a publicidade tenha outros valores para retratar.

Pra encerrar esse tratado, quero dizer que aprendi uma coisa hoje. Um erro que todos nós cometemos quando opinamos ou criticamos. Nós nos ISENTAMOS nessa hora. Apontamos o dedo e nos DELETAMOS, como se não fossemos corresponsáveis, como se não fossemos nós os autores de tudo isso. Mas somos nós que votamos nos corruptos. Somos nós que sustentamos a corrupção. Somos nós que pagamos suborno pro guarda. Somos nós que promovemos o preconceito e perpetuamos a incompreensão. Nós que fechamos os olhos para a injustiça, nós que ao mesmo tempo RIMOS DA PIADA E DIZEMOS QUE ELA É ERRADA. Você RI da piada e depois aponta o dedo pra quem acha graça. Nós somos total e completamente loucos como sociedade. Seria sensacional se pudéssemos dar uma controlada nessa doideira. Só um pouquinho.

O Brasil sempre foi muito novinho, um país de crianças.

Mas agora o tempo passou e já temos mais de 500 anos.

Está na hora de largar a chupeta, a fralda e aprender a compartilhar os brinquedos e respeitar o coleguinha. E se transformar num adulto bacana.

Bom dia.


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