JotaPêAh!

A presunção do patife

em 01/08/2011 10:22:37

Leia o texto original aqui.

 

Se você tem um pouquinho mais de idade, deve se lembrar como os mocinhos e bandidos se xingavam nos filmes de bang-bang nas décadas de 70 e 80, assistidos nos principais canais do Brasil: “Patife!”. “Patife” só competia em ocorrências com “bastardo”. Eu ficava me perguntando por que os americanos se chamavam tanto de “patife”, até porque eu não sabia o que era isso… E mal sabia eu que eles, na verdade, já falavam outras coisas nos filmes daquela época, mas que eram os tradutores brasileiros do período da ditadura militar que eram obrigados transformar todo tipo de agressões em “meras patifarias” para não ferir os bons costumes das famílias brasileiras e os nobres ideais do Regime… Mas, isso é outra história… “Patife” é um vocábulo pouco usado no Brasil de hoje, tem cara de “coisa de velho” e parece que ficou para a história como uma espécie de xingamento mesmo. Mas, na verdade, a palavra descreve um tipo de comportamento e, mais do que uma ofensa, uma agressão, ela é bem descritiva. Neste artigo, a palavra aparece como uma “metáfora psicológica”, como aquelas que Freud usou para falar de “Édipo”, “Electra” ou “Narciso”.

 

Por definição de dicionário, patife é um sujeito que mistura um pouco de canalha (sujeito sem princípios morais rígidos) e um pouco de embusteiro (sujeito que se dedica a enganar os outros) a boa certa dose de covardia. É uma figura que engana os outros, mente compulsivamente, vive um mundo de fantasia, nega tudo sempre, sempre tem razão nas coisas e, por fim, não tem coragem de assumir a própria condição. Mas, é também – e justamente pelo que apronta – uma figura apalhaçada e tosca, a quem não se dá muito crédito logo que se conhece um pouco mais. A figura do patife é, quase sempre, notória. Ao mesmo tempo em que se acha esperta, é tonta; ao mesmo tempo em se se acha manipuladora, mal consegue lidar com os próprios problemas. É uma pessoa complexa e problemática. Mas, o que interessa, sobremodo, é compreender que, se existem patifes por defeito de caráter, também existem muitos patifes com problemas psicológicos. E é destes, em especial, que quero tratar aqui. Vamos partir do princípio:

 

A necessidade de sentir-se aceito é uma das mais fortes no ser humano. Saber que se é amado e reconhecido é algo imperativo em nossas vidas. O contrário é tratado como uma patologia psicológica. Ninguém gosta de ser jogado de escanteio, desprezado, desconsiderado e, por isso mesmo, dispendemos grande parte de nossa energia tentando fazer coisas que agradem as pessoas. Por isso, procuramos, com tanto ardor, adotar os padrões do grupo no qual queremos ser aceitos e reconhecidos: se todo mundo ali é cheiroso, ficamos cheirosos; se todo mundo é fedorento, ficamos fedorentos.

 

Porém, em ambientes educacionais, com escolas e universidades, essa necessidade de aceitação se agrava e passa a patamares muito perigosos em função dos elevados níveis de pressão que professores e alunos sofrem nesse ambiente. Professores são pessoas públicas, expostas o tempo todo, sob permanente julgamento. Eles têm necessidade de se sentir competentes, pois isso é lhes cobrado diariamente como condição para a aceitação. Essa “certeza de competência”, para a maioria dos professores, vem de fora pra dentro, vem pelo reconhecimento da comunidade, por um elogio, por uma menção honrosa qualquer. A pressão social e psicológica que se exerce sobre um professor em razão de sua necessidade de competência é inacreditável! Nos ambientes universitários, essa pressão se multiplica por dez, na medida em que, além de competente nas aulas, o docente precisa produzir quase que compulsivamente pra demonstrar competência. Ele tem que passar por constantes avaliações que o submetem à humilhação de ficar prestando contas de sua vida, de seu tempo, de sua produção, sem o que sequer consegue uma progressão funcional. Ser produtivo como a academia quer, porém, nem sempre é possível: nem todos nasceram para ser escritores, palestrantes, máquinas de trabalho científico. O ritmo de alguns é mais lento, embora façam coisas importantes, alguns não são bons retóricos, outros não são tão performáticos, mas ninguém quer saber disso. Da mesma forma, os alunos recebem muita pressão dos professores e, mais ainda, dos colegas de classe, em razão de sua produtividade na sala. Eles precisam ser bons. Não ser “inteligente”, nesses ambientes, significa estar em segundo plano, não ser aceito, ter que aguentar constantes humilhações.

 

Quando essa pressão brutal e impiedosa recai sobre uma pessoa com qualquer desequilíbrio emocional, a coisa começa a complicar. Se a pessoa tem uma propensão à depressão, tem baixa autoestima, normalmente, ela se transforma em uma “ostra”, se tranca pra vida ou desiste de tudo e, não raro, curte uma depressão infernal que pode levá-la à morte (ou a provocar a própria morte, o que não é incomum). Porém, se essa pressão recai sobre uma pessoa egocêntrica, aquela em que a autoestima parece exceder em muito a realidade pessoal, a coisa complica não só pra ela, mas pra todo mundo. É dessa figura que vou tratar mais detalhadamente aqui, porque é ela uma das que mais infernam os ambientes de trabalho.

 

A necessidade de um egocêntrico de tomar parte ativa do mundo como alguém que se destaca sempre, sua necessidade de ser o centro das atenções em qualquer situação, somada à pressão por ser “inteligente” e mostrar isso produzindo coisas, é uma base muito propícia pra se desenvolver uma psicopatia de relacionamento. Muitas vezes, isso ainda se soma a problemas históricos adicionais como uma desilusão amorosa, uma dificuldade acentuada em algum tipo de realização em especial (como publicar escritos, por exemplo), uma insatisfação com a própria condição física (obesidade ou magreza excessivas, insatisfação com a estatura, defeitos físicos congênitos ou adquiridos, considerar-se feio, etc.), problemas de identidade sexual, insatisfação com o salário, o cargo ou a instituição em que trabalha (por exemplo, trabalha em uma escola de periferia, mas queria trabalhar em uma escola “famosa”, é professor, mas queria ser diretor). Essa soma de egocentrismo + pressão social + problemas emocionais adicionais é uma equação que tem o poder de gerar uma figura bem conhecida nos ambientes educacionais, que eu chamo aqui, metaforicamente, de “patife” ou “psico-patife”. E isso não é um xingamento de bang-bang: é que, por incrível que pareça, essa é a palavra que melhor descreve o comportamento dessas pessoas. Alguns dos traços comportamentais desse tipo de figura são bem conhecidos:

 

  1. a.       em primeiro lugar, seu traço mais significativo e fácil de identificar é que ela cuida da vida de todo mundo, vigia todo mundo, quer saber o que todo mundo faz, mas porque gosta de se achar uma pessoa esperta e manipuladora. Por isso, gosta tanto de conversas à boca pequena, dos cantinhos, das fofocas mais quentes. Por isso, também, sempre tem um sorriso fácil no rosto, uma piadinha na manga da camisa ou um elogio barato pra disparar. É como ela consegue angariar a simpatia fácil dos demais. Isso a faz sentir-se importante, faz com que ela se sinta maior do que realmente é, dá a ela uma sensação de segurança emocional que sua condição real não lhe proporciona;
  2. b.      como vive muito ocupada com a vida dos outros, essa figura é, geralmente, muito improdutiva, pois não lhe sobra tempo para fazer o que deveria. Soma-se a isso que ela sente necessidade de estar em todos os lugares possíveis ao mesmo tempo, pra poder vigiar e, assim, acreditar que ela é que está influenciando todas as decisões (lembre-se: ela se considera uma ardilosa manipuladora de vidas). Por isso, ela quer fazer parte de tudo, de todas as comissões, de tomar assento em todos os conselhos, de participar de todas as deliberações. Luta pra ter seu nome inserido em tudo, adora ver seu nome publicado em portarias e diários oficiais mas, quase sempre, não faz nada. Gosta, na verdade, de trabalhar com as mãos alheias. Sempre que pode, empurra seu trabalho pra outro fazer, embora vá dizer, depois, que foi ela quem fez tudo;
  3. c.       toda vez que é confrontada, se torna agressiva e assume uma postura de “cristo”. Com a mesma facilidade com que quer tomar conta de tudo, larga tudo pra trás e “abre mão de seus direitos” pelo “bem da nação”, desde que – é claro – consiga sair da situação como vítima. Ama se fazer de ofendida, porque essa é uma óbvia maneira de chamar atenção e angariar votos de piedade em seu favor, o que, aos seus olhos, a engrandece moralmente diante dos outros. Nesse sentido, tal figura é mesmo o retrato fiel de um patife (enganador, cínico e covarde), que nos irrita muito e causa sérios problemas no ambiente de trabalho. Mas, é justamente aqui que temos que ter mais  discernimento pra ver se esse comportamento é causado por problema moral  – o que faria dessa pessoa alguém “ruim”, digna de condenação – ou se é uma psicopatia – o que demandaria tratamento psicológico adequado;
  4. d.      além disso, essa figura vive aumentando o que é e o que faz. Sente uma necessidade doentia de falar de si, de suas realizações e de seus amigos importantes (sim, ele sempre tem amigos muuuuuito importantes…). Se publica um livro comum, desses de 50 páginas – que pode até ser bom, afinal – faz parecer que publicou a versão atualizada da enciclopédia britânica; se participa de uma reunião corriqueira, precisa de dois dias para descansar do desgaste emocional que sofreu pra salvar o mundo na ocasião; vive sempre falando que é uma pessoa muuuuuuuito ocupada, que não tem tempo para nada. Mas, na realidade, ninguém sabe em que ela está tão ocupada, fazendo o quê… porque ela não produz nada! Se lhe dão qualquer tarefa corriqueira, pode até fazer, mas passa o resto do mês contando pra todo mundo o trabalhão que deu! Na verdade, essa atitude decorre da necessidade de chamar a atenção para si. Num caso desse, se diagnosticado um problema psicológico, isso deve ser compreendido mais como uma carência do que como um defeito moral;
  5. e.       finalmente, vem a característica que define o título do artigo: a presunção do patife. Como essa figura se acha o centro do mundo, ela também tem a presunção de que todas as demais pessoas do ambiente de trabalho a consideram da mesma forma. Na cabeça dela, todo mundo está sempre olhando pra ela, falando dela, se preocupando com ela. Se você diz: “O dia está quente…”, ela já acha que é com ela; se você diz “A privada da minha casa entupiu…”, ela já pensa que isso é uma forma disfarçada e covarde de falar dela; se você escreve uma carta pra sua vó, a pessoa com esse tipo de problema já pensa que é pra falar dela. Há uma presunção de centralidade que tem, como efeito colateral, a necessidade de vigiar os outros pra interpretar suas atitudes e verificar de que forma elas “ameaçam” as fantasias do patife. Como resposta às maluquices que essas pessoas enxergam nas atitudes alheias, elas não hesitam em inventar coisas, mentir, manipular, torcer palavras, criar problemas fictícios, boatos, factoides, sempre na busca de tirar benefícios e tudo mais que a gente conhece tão bem. Por exemplo, imaginemos que uma pessoa assim quer se aproximar de você (pra tirar alguma vantagem, é claro) e, por qualquer razão, ela acha que você não vai aceitá-la. Sem nenhuma dor de consciência, ela inventa que “alguém disse que você na gosta dela” ou que “alguém disse que ela não gosta de você”. Depois, vem com cara de boa criança dizer que te ama, que acredita em você, que você é legal e que as pessoas que inventam essas conversas são infelizes desocupadas, mas que “ela vai te proteger desse mal”. Ou seja, o patife inventa, ele mesmo desmente, ele mesmo atribui o feito a outra pessoa (que nem existe, mas que ele sabe quem é e só não te conta por questões éticas) e ele mesmo conserta tudo só pra que você perceba como ele é bom, íntegro, importante na sua vida.

 

Pessoas assim dão um trabalho danado no ambiente de trabalho. São uma fonte incansável de problemas. Se não forem identificadas e compreendidas, elas podem colocar a perder todo um grupo, podem destruir um projeto, até uma instituição. O problema é que sua esperteza doentia, não raramente, passa despercebida, considerada apenas um “mau hábito”. Não é incomum que pessoas assim, em função de suas peculiaridades, coloquem abaixo toda uma escola ou toda uma universidade. Nesses anos todos de educação, já assisti isso algumas vezes, e você, leitor, também já deve ter visto isso acontecer. Acompanhei um caso em que uma instituição educacional pública com cerca de 1300 pessoas quase se acabou, e chegou a sofrer uma intervenção, por conta de uma pessoa assim – isso mesmo: uma única pessoa! Em outro caso, um professor com esse problema levou quase todo o corpo docente de uma escola estadual a parar na polícia. Em um terceiro caso, também de uma escola pública, houve uma revolta de alunos contra a direção e todos os outros professores, que custou duas semanas de aulas. E isso, sendo que apenas o patife estava dos alunos e do “lado do bem”. Isso pra lembrar apenas três casos… O poder de destruição de um “psicopatife” é incalculável!

 

Por isso tudo, convém ficar esperto quando lidamos com essas patifarias doentias. Identificar essas figuras e ser capaz de isolar os efeitos de suas atitudes no ambiente de trabalho pode ser o fiel da balança entre o sucesso e o insucesso de um grupo. Encaminhar essa pessoa a tratamento psicológico adequado nem sempre é fácil, mas é necessário. Digo sempre que não entendo por que escolas e universidades têm psicólogos para atender alunos, mas não os têm para os professores e demais funcionários. O fato de ser professor não implica que a pessoa não precise de ajuda.

 

Muitas vezes, tratando o psicopatife e o tornando capaz de controlar essa junção de fatores que se associam a uma personalidade egocêntrica, descobrimos o quão capazes de produzir e conviver podem ser os autores dessas patifarias todas. Afinal, se tais pessoas não fossem capazes e inteligentes, como conseguiriam causar tanto estrago no grupo de trabalho?


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