JotaPêAh!

Trecho de Cartas entre Amigos–Sobre Medos Contemporâneos–Carta 16

em 19/11/2010 02:14:45

Meu querido amigo, o tempo é o invólucro da existência. Tudo o que fazemos e sentimos por ele é perpassado. Grandes medos nascem dessa condição. É natural que seja assim. Afinal, ele não sabe parar, não sabe retoceder. Lidamos com esse limite, e isso nos assusta, nos amedronta. O amor que sinto e alimento está nas mãos do tempo. A criatura amada anda nos trilhos assustadores por onde deslizam seus vagões pesados.

A mãe acompanha feliz os primeiros passos do filho, mas sabe que esssa autonomia será também causa de procupação. A criança presa aos braços ameniza o medo da perda, mas o movimento do tempo, expressão concreta em ossos que se desenvolvem, corpo que vai ganhando volume e destreza, é imperativo que ordena um novo jeito de cuidar. O tempo se mostra com seu poder de adoção, e a mãe, sem ter como negar, entrega-lhe nos braços o filho que até então pensava poder proteger por todo o sempre.

O tempo e seus intervalos. O medo cabe em todos eles. Quando obedecemos ao vermelho do sinal que nos pede parada, imediatamente nos fechamos em nossos carros, crentes de que vidros indefesos nos protegerão dos medos que sentimos. O menino e seus malabarismos tão cheios de erros não nos encantam, ainda que estejam tentando nos fazer sorrir. A roupa de palhaço, a purpurina improvisada, brilho que se mistura ao suor de quem sente a concretude da dureza da vida. Filhos que não sabem por onde andam os seios que os amamentaram. Meninos e meninas. Eles também estão com medo. Temem que nós não os reconheçamos como artistas que merecem aplauso, moeda de pequeno valor, que condensa a metáfora de um reconhecimento temporário, valor que não compra a felicidade esperada, a vitória que nunca chegará.

Em pequenos intervalos estão grandes medos. Outro dia encontrei uma senhora na sala de espera de um consultório médico. Os olhos revelavam uma apreensão imensa. Ela tinha um resultado de exame nas mãos. Era a confirmação, ou não, do câncer do filho. O intervalo curto da espera era discrepante perto das demoras da alma. O destino do filho estava ocult em expressões que ela desconhecia. O jargão do amor não é o mesmo da medicina. Ela me olhou com calma e pediu que eu rezasse para que não fosse nada, que tudo não passasse de um engano. Não houve tempo para orações. Ao sair do consultório, ela se limitou a balançar a cabeça em minha direção. As lágrimas eram silenciosas. As mãos trêmulas anunciavam que o duelo com o tempo estava estabelecido. De um lado, ela, a mulher com o filho nos braços. Do outro, ele, o tempo com seus dentes de aço, pronto para devorar a carne, que é morfologia do amor sentido, experimentado. A mulher corria na direção do seu carro. O exame nas mãos era uma sentença de morte que ela teria de comunicar ao seu menino. Tinha em suas mãos um curto intervalo de tempo. O tempo de chegar em casa e anunciar que o inesperado destino de morrer antes da hora se cumpriria. Meu amigo, morte não combina com juventude, corpo cheio de viço, destrezar de andar longas distâncias. Aquela mulher sabia de tudo isso. A contradição estava embrulhada naquele pequeno envelope de papel timbrado. O pequeno pedaço de papel era a casa de uma verdade não desejada, e só aquela mulher transitava pelos cômodos tão cheios de susto e escuridão.

O pequeno intervalo haveria de ter um fim. A palavra seria pronunciada. Teria de olhar nos olhos de seu menino e em intervalos de outros novos tempos decorar-lhe as feições, movida pelo desejo simples de nunca mais esquecê-lo. O tempo e seu poder de determinar partidas e chegadas, assim como o inverno se oculta em lugar que desconhecemos para que reine soberana a estação das flores.

Ao entrar no consultório, notei que o médico também sofria seu intervalo de medo. Ele estava desconcertado. Eu o olhei sem medo de que percebesse também meu desconcerto. Ele se encorajou para me contar que não tinha sido fácil dar aquela notícia. Fiquei pensando no intervalo de seu medo. Abrir o envelope e identificar que a ampulheta já estava virada. Saber só, mover-se em solidão no conhecimento não dividido, aptidão médica de saber identificar as consequências dolorosas que estão escondidas em termos técnicos.

O médico e seus medos contidos. Esbarrar na morte, na esperança da vida, nos recursos existentes ou no fim já anunciado. Sentir na solidão do peito a palavra que não está pronta, mas que precisa ser dita. Olhar nos olhos da mulher tão cheia de ansiedade e ter de dizer que seu filho morrerá em breve. Que não há nenhum endereço a ser buscado, porque o temppo já não permite mais rter esperanças.

Cartas entre amigos – Sobre medos contenporãneos, páginas 207-209. Ediouro

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