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Do G1 – ‘Ele cavou uma cova para mim’, diz mulher vítima de violência

em 30/07/2010 13:33:15
Ana Cláudia tem pouco menos de 30 anos e passou quase um terço da
vida sendo agredida pelo ex-companheiro. Um dia, chegou em casa do
trabalho e havia uma cova no quintal. Era uma maneira encontrada pelo
ex para intimidá-la.
“[Ele] me ameaçava de morte. Teve um dia que cheguei do serviço e
no fundo do meu quintal tinha um terreno e tinha um buraco onde ele ia
me enterrar. Várias vezes falou que ia me matar, dar facadas, cortar
meu corpo em pedacinho, ia enterrar e que ninguém ia me encontrar.
(…) Ele cavou uma cova. (…) No dia que vi aquele buraco, você não
tem noção de como fiquei apavorada. Eu só estou viva hoje porque eu
procurei ajuda, eu fui na delegacia da mulher e eles me encaminharam
para o abrigo, senão eu não estava viva hoje”, disse

A história de Ana Cláudia é uma entre as de muitas mulheres vítimas
de violência. Atualmente, os noticiários dão destaque aos casos de
Eliza Samudio, ex-amante do ex-goleiro do Flamengo Bruno Souza,
desaparecida há mais de um mês, e da advogada Mércia, encontrada morta
em junho. Mas a maioria dos casos não aparece no noticiário.
O G1 visitou uma casa-abrigo onde moram mulheres
e seus filhos, que fugiram dos companheiros e tentam recomeçar uma nova
vida após agressões e ameaças. Os nomes das mulheres vítimas de
violência citadas na reportagem foram alterados a pedido das
entrevistadas.
As ameaças e agressões contra Ana Cláudia começaram quando ela começou a trabalhar.

“Ele não acreditava em mim, achou que eu ficava com homens no meio
da rua. Um dia ele judiou muito de mim, fez machucado bem grande na
minha cabeça. Ele arrancou a porta, jogou na minha perna. Arrancou
metade dos meus cabelos. (…) Ainda tô fazendo tratamento psicológico.
Para ter ânimo. Um dia juntei todos os comprimidos e fiquei três dias
dormindo, tipo um coma de três dias. Não acordava. Eu não via mais
razão para viver, eu queria destruir aquela vida, porque não estava
mais fazendo sentido para mim.”

Ela mora no abrigo e atualmente faz curso na área de construção
civil. O maior medo é reencontrar o ex-companheiro, que ela classifica
como “perigoso”. “Eu tenho muito medo dele, da família, de tudo, dos
amigos, de tudo dele eu tenho medo, eu saio e fico que nem doida no
meio da rua, toda hora olhando para trás, se alguém olha muito eu tenho
que sair de perto.”

O medo de Ana Cláudia tem razão de existir, de acordo com a
advogada Maria Aparecida da Silva, especializada em violência contra
mulher. Ela conta que a ida ao abrigo é necessária nos casos em que a
mulher corre risco de morte e que, na maioria das vezes, os
ex-companheiros insistem em procurar as mulheres. Por isso, elas vivem
sob absoluto sigilo, sem poder contar nem mesmo a parentes onde estão.
Quando chegam, passam cerca de 30 dias sem contato com o mundo externo.
Depois da “trintena”, podem fazer ligações sob a supervisão de
educadoras para garantir que não vão revelar o próprio paradeiro.
A coordenadora da casa-abrigo visitada pelo G1,
que cuida da organização da casa e recepciona pessoalmente as mulheres
– o nome dela foi preservado pela segurança do local -, diz que o
trabalho sobre a importância de manter o sigilo da casa é constante.

“A tendência é esquecer o risco. Por isso a gente trabalha todo dia
com elas, não no sentido de aterrorizar. Trabalhar o medo saudável. Tem
dois tipos de medo: o que paralisa é horroroso, a pessoa nunca mais
caminha. O medo saudável é aquele que preserva minha vida, minha
segurança e ao mesmo tempo me permite ir à luta”, diz a coordenadora.
O abrigo visitado pela reportagem fica na Grande
São Paulo. É uma casa normal em uma rua tranquila, sem muito movimento.
Há vários quartos – algumas famílias maiores ficam em um único ambiente
e outras dividem o espaço -, refeitório, sala de TV, cozinha, copa,
lavanderia e quintal para as crianças brincarem. Algumas mulheres estão
sozinhas, outras com seus filhos. Vítimas de violência doméstica, estão
ali porque psicólogos e assistentes sociais identificaram que havia
risco de morte.

 

Fracasso
A coordenadora do abrigo conta que
as mulheres chegam no local com “sentimento de fracasso”. “A nossa
sociedade nos ensinou que somos responsáveis pelo sucesso do casamento,
pelo sucesso dos filhos, dessa vida familiar. Então, quando chegam
aqui, além da perda material, da perda dos objetos pessoais, chegam com
muita raiva, outras com muita tristeza. O sentimento de fracasso é
geral e na maioria das vezes elas saem agressivas no sentido de defesa.
Elas chegam muito indignadas, ‘eu não dei certo’, ‘eu fracassei’, ‘ele
é um criminoso, mas está lá fora solto e eu estou aqui presa’.”

Para a advogada Maria Aparecida da Silva, é uma distorção as
mulheres ficarem privadas de liberdade enquanto seus agressores ficam
soltos. “É injusto e desumano uma mulher ter que se retirar de sua
condição de mãe, de esposa, da família, ser retirada de seu convívio,
de sua comunidade, para ter de ficar presa enquanto agressor fica
solto, é injusto.”

Ana Cláudia afirmou que, quando conheceu o ex-companheiro, ele não
era violento. “Ele nunca mostra quem é no começo, sabe a pessoas tem
várias faces, tem palavra para tudo que perguntam. É boa para as
pessoas na rua, quem vê fala ‘nossa essa pessoa não é assim’.Tem
estudo, profissão boa, tem tudo para ser uma pessoa educada, sabe
conversar com mendigo até prefeito, governador. Mas com companheira
dele em casa, quando abre a porta, deixa tudo de bom que tinha lá fora.”

 
Lúcia, que também falou com o G1, passou mais de
dez anos em situação de violência. “Ele me batia muito, usava armas, me
ameaçou com armas. Me intimidava, a primeira coisa que fazia era me
apontar um revólver. Convivi durante todo o tempo com esse tipo de
situação. (…) Sofri em minha casa durante 10 anos. Eu sofri vários
tipos de violência, psicológica e agressões físicas. Eu não aguentava
mais. Eu decidi que tinha de denunciá-lo e através da minha denúncia
vim para o abrigo. Eu descobri que [ele] era violento depois de um ano
de casado, aí descobri quem era a pessoa dele.”

Assim como Ana Cláudia, Lúcia também teme encontrar o
ex-companheiro. “Por incrível que pareça, estou dois anos afastada e
ele ainda me procura. Eu tenho muito medo, de ele me encontrar se ele
chegar a me encontrar. Porque ele pode me matar, onde ele me achar ele
me mata.”

De acordo com especialistas, as mulheres que sofrem violência podem
buscar informações no disque-denúncia 181. Devem ainda buscar
orientação dos centros de referência de apoio à mulher em seus
municípios, que orientam sobre as medidas de abrigamento e as medidas
judiciais contra o ex-companheiro.

Nos abrigos, as mulheres fazem cursos e aprendem profissões. Elas
ficam nas casas por, no máximo, um ano e meio. Nesse período, técnicos
ajudam para a obtenção de um emprego e também auxiliam para que a
pessoa regularize a sua documentação pessoal. Depois, cada uma segue a
sua vida, muitas vezes em cidades diferentes.

Medo de perder os filhos
Cristina é uma das
pessoas que está há menos tempo no abrigo visitado pela reportagem. Ela
chegou ao local com os filhos, mas relutou em buscar ajuda por medo de
perder a guarda. “Eu não denunciava porque tinha medo que pudessem
tomar meus filhos de mim.”

 

Ela conta que o marido batia também nas crianças. “Ele tinha muito
ciúme, até do filho quando mamava, porque o menino só queria a mãe. Com
o menor, chegou a espetar o garfo no céu na boca porque não queria
comer feijão. O pintinho do meu filho ele puxava, torturava mesmo.”

Após ligar no disque-denúncia, recebeu a orientação de que não
perderia a guarda dos filhos e resolveu denunciar o próprio marido.
“Ele me batia muito, resolvi denunciar no dia que ele disse que ia
quebrar minhas pernas e me matar.”

Cristina disse que o marido não bebia, não fumava e não usava
drogas, mas já demonstrava sinais de violência antes mesmo do
casamento. “Era violento com as irmãs, uma vez eu vi ele dando um soco
na irmã, mas achei que nunca ia fazer isso comigo.”

‘Príncipe encantado’
Priscila também mora no
abrigo com os filhos. Ela conta que o marido a humilhava e chegou a
botar fogo na casa. “Ele batia, humilhada, me colocava fora de casa, me
deixava tomando chuva. Antes de vir para cá, ele colocou fogo na minha
casa e queimou tudo que eu tinha.”

Disse que as drogas o levaram a ser violento. “Quando casamos ele
não era violento, falava que me amava, que iria me proteger, não ia
deixar ninguém fazer nada de mal para mim. Mas ele começou a usar
droga. Antes ele era um sonho, um príncipe encantado.”

Lei Maria da Penha
Criada para proteger mulheres em situação de violência, a Lei Maria da Penha completa quatro anos em agosto.
A abrangência da legislação gera divergências dentro do Judiciário, de acordo com magistrados consultados pelo G1.
Enquanto alguns juízes entendem que a legislação vale para todos os
casos de violência contra a mulher, outros consideram que ela só se
aplica a relacionamentos estáveis. Para que a situação seja contornada,
magistrados defendem alteração na lei para deixá-la mais clara.

Fonte:

http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/07/ele-cavou-uma-cova-para-mim-diz-mulher-vitima-de-violencia.html


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