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Memória

em 29/05/2010 02:11:29

Entender
os mecanismos de funcionamento da memória humana constitui

um dos grandes desafios da ciência moderna. Já na
tentativa
de definição o tema mostra sua complexidade. Isso
porque o conceito de memória varia de acordo com a
especialidade
no qual será aplicado. No entanto, uma das definições
mais usadas é a de memória como capacidade de reter
e manipular informações adquiridas anteriormente.

Para
José Lino Bueno, professor do Departamento de Psicologia
e Educação da Universidade de São Paulo (USP)
de Ribeirão Preto, a memória é um conjunto
de procedimentos que permite manipular e compreender o
mundo, levando
em conta o contexto atual e as experiências individuais,
recriando
esse mundo por meio de ações da imaginação.

“O
que fica armazenado é um ‘sumário interpretativo’
de toda nossa experiência passada. A capacidade dos
neurônios
de se transformar, adaptando sua estrutura ao contexto
(plasticidade
neural), seria o suporte desse funcionamento da memória.”,

explica o pesquisador.

Essa
capacidade de memorização não é exclusiva
dos seres humanos. Pesquisas têm demonstrado a existência
de mecanimos de memória em animais como pombos e
chimpanzés.
Para Bueno, a realização de experimentos com primatas
pode ser útil para a compreensão de propriedades da
memória humana. Segundo ele, há semelhanças
que não podem ser ignoradas, mas não se sabe exatamente
quais os limites da capacidade de processamento dos
animais. “Sabe-se,
por exemplo, que chimpanzés e babuínos podem ser capazes
de usar mapas espaciais; o que se investiga, ainda, é até
onde vai a capacidade desses animais de processamento de
imagens
mais abstratas, simbólicas e não icônicas”.

O pesquisador
lembrou ainda que alguns estudos mostraram que pombos
podem armazenar
até 320 imagens de slides com 90% de acerto na
identificação
daquelas que foram arbitrariamente classificadas pelo
experimentador
como positivas ou negativas.

No
entato, os trabalhos sobre mecanismos de memória e
funciomento
do cérebro humano demonstram que a complexidade da memória

humana é muito maior do que de qualquer outro animal
estudado.

“Em humanos, o desempenho em atividades de memória está
muito mais sujeito à ativação de diferentes
funções mentais e cerebrais, o que o torna bastante
variável para o mesmo indivíduo e mais ainda de indivíduo
para indivíduo”. Segundo ele, o desempenho da memória
humana depende da combinação entre aspectos de maturação
nervosa, de contexto e da demanda atencional, emocional e
motivacional
da tarefa.

Tipos
de memórias

Apesar da existência de vários modelos explicativos
para o funcionamento da memória, uma das questões
que ainda intriga os pesquisadores é a relação
entre a memória de curta e a de longa duração.
Alguns defendem que a memória de curta duração
seria apenas o início do processo que levaria à formação
de uma memória de longa duração. No entanto,
a maioria dos resultados obtidos nas pesquisas sobre o
assunto tem
sinalizado para a existência desses dois mecanismos
distintos,
funcionando de forma independente, mesmo quando agem na
mesma estrutura
do cérebro.

Mais
importante que definições gerais, para entender a
memória humana é fundamental saber os processsos que
envolvem a aquisição, armazenamento e evocação
de cada tipo de memória. Para isso, o primeiro passo é
saber que não existe uma memória, mas sim vários
tipos de memória que se relacionam para formar “a memória”

que usamos no dia-a-dia.

As
classificações mais utilizadas para memórias
são estabelecidas de acordo com o tempo de duração,
função e conteúdo de cada uma delas. E, ao
contrário do que se pensa comumente, o processo de memória

não acontece apenas quando apreendemos algo novo
(arquivamos),
ou lembramos de algo (recuperamos). Há também a memória
de curto prazo ou memória de trabalho, que
alguns pesquisadores preferem não chamar de memória,
mas sim de central de gerenciamento.

A memória
de trabalho é usada, por exemplo, quando retemos um número

de telefone apenas por tempo suficiente para discarmos,
estamos
usando esse tipo de memória. Além da sua baixa capacidade
de retenção da informação – alguns segundos
ou no máximo poucos minutos – a memória de trabalho
é responsável por gerenciar nossa realidade. Ela determina

se a informação é útil para o organismo
e deve ser armazenada, se existem outras informações
semelhantes em nossos arquivos de memória e, por último,
se esta informação deve ser descartada quando já
existe ou não possui utilidade.

No
exemplo do número telefônico, como já conhecemos
a linguagem numérica e presumimos que aquela informação
não precisa ser memorizada, os mecanismos para formação
de arquivos de memória não são ativados e a
informação é “esquecida”. Então,
se não conseguimos completar a ligação, muito
provavelmente teremos que procurar o número novamente, já
que ele já foi esquecido. Na verdade nem chegou a formar
arquivos de memória.

As memórias referenciais também podem
ser classificadas de acordo com seu conteúdo
como declarativas episódicas, quando se

referem à lembrança de algo que assistimos
ou vivenciamos ou declarativas semânticas,

quando são referentes a noções
gerais adquiridas de forma indireta, como a
lembrança
de um livro que lemos. As principais áreas
responsáveis
pelas memórias episódicas e semânticas
são o hipocampo e o córtex entorrinal.

a memória de longo
prazo ou referencial

tem o processo de formação de arquivo e consolidação,
e pode durar de minutos e horas a meses e décadas (neste
último
caso são conhecidas também como memórias remotas).
São exemplos desse tipo de memória as nossas lembranças
da infância ou de conhecimentos que adquirimos na escola.

“Os sistemas
de curto e longo prazo de memória estão ligados,
transferindo
informações continuamente de um para outro. Quando
necessário, o conteúdo da memória de longo
prazo é transferido para o armazenamento da memória
de curto prazo. O sistema de curto prazo ou memória de
trabalho
recupera as memórias, tanto de curto quanto de longo
prazo”,
afirma Bueno.

As
memórias referentes a hábitos como andar de bicicleta,
saltar e soletrar são chamadas de proceduais ou de
procedimento
.
Estas podem ser explícitas, adquiridas com plena
consciência
ou implícitas, como a maioria das memórias
proceduais, adquiridas de maneira involuntária.

Memória
na psicanálise

Mas a memória tem sido estudada também sob um outro
ponto de vista, no qual o objeto de estudo não é o
que pode ser lembrado, mas sim, o contrário, o que não
é lembrado, e que está retido no inconsciente. Para
a teoria psicanalítica o mais importante é justamente
o que se gostaria de esquecer.

“A
memória para a psicanálise é um campo no qual
as significações feitas por alguém, a partir
das suas experiências vividas ou imaginadas, articulam-se
em uma linha de continuidade que pode estar interrompida
em alguns
pontos pela ação de certos processos defensivos”,
pontuou Ana Cecília Carvalho, professora no Departamento
de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais.

Segundo
a psicanalista, muitas memórias ‘esquecidas’ estão
na verdade reprimidas no inconsciente por se tratarem de
lembranças
que trariam sofrimento para a pessoa. Em alguns momentos
conhecidos
como ‘lapsos de memória’, nos sonhos ou através de
um tratamento psicanalítico, quando essas memórias
seriam recuperadas e voltariam para o consciente.

“Quando
nos lembramos de algo, vem à tona apenas uma parte de uma
quantidade muito maior de elementos que provavelmente
estão
submetidos aos diferentes graus da censura que existe
entre o inconsciente
e a consciência. Assim, nem sempre ‘lembrar’ é o mesmo
que ‘ter consciência'”, esclarece a pesquisadora.

Na
opinião de Bueno também existiriam características
relacionadas à nossa qualifição e experimentação
individual, que influenciam na capacidade ou facilidade
com que
memorizamos as informações. “Parece que acontecimentos
conscientemente percebidos precisam assumir algum tipo de
dimensão
afetiva”.

No
entanto, os estudos sobre o grau de influência de
mecanismo
de repressão ou das emoções nos processos de
memória são ainda pouco conclusivos. No caso da repressão,

estudos apontam para o provável envolvimento de sistemas
corticais capazes de inibir a função de outras áreas
corticais ou do hipotálamo.

Fonte


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