JotaPêAh!

O que o silêncio diz

em 15/03/2010 13:56:25
No quesito palavras, não poderei
deixar de fora o mestre, o sinistro, o doce, o denso, e às vezes
ensurdecedor, silêncio. Ô bichinho para falar, sô! Quem nunca sentiu o
perigo que se anuncia no meio de uma conversa, como tapete vermelho de
um segredo, ante-sala de uma revelação? E mais, quem conhece o
silêncio? Existe, na categoria de absoluto? Uma vez fiquei, por sete
dias, numa altura que nem tenho aritmética para contar, entre
montanhas, na parte mais alta de um mosteiro em Ibiraçú, no meu lindo
Espírito Santo, escrevendo uma série para crianças, chamada Amigo
Oculto. O silêncio que me envolvia era muito animado. Fora a voz forte
e muda das rochas, que, embora subjetiva, não deixa de ser voz por
isso, se juntava a ela as MPB’s dos passarinhos tropicais, os ventos em
modalidades de quem viaja com passaporte vermelho de diplomata e,
venham de onde vier, ninguém os detém; chuvas percussionistas com seus
tambores de trovões e seus batuques nas folhas, somadas à toada de
aplausos que os pingos costumam produzir. À noite, grilos, sapos,
cobras – e até sacis – dentro da escuridão, garantiam a presença da
hóspede dentro dos aposentos, habitando o planeta denso dos sons que
moram nas cordilheiras. Um grupo que meditava na parte baixa do
mosteiro me encontrou no sexto dia e uma moça me perguntou: “Você está
aqui sozinha? Eu não aguentaria esse silêncio não, ele ia me matar!”.
Talvez ela tenha querido dizer que, num lugar desses, os nossos
interiores, vendo a casa sem vigia, vêm para fora e se pode até ficar
sem falar com os outros, mas a conversa não para. O assunto emerge
derramado pra fora aproveitando a solidão, usando o som do mato sem a
voz e o olhar do outro por perto. Tomemos especial reparo ao que chamam
silêncio de praias desertas. Qual? O das intermitentes águas e vagas,
com seus abdomens de altíssimo paredão que espocam na arrebentação pra
virar branca espuma, o dos ventos assobiando nos lençóis arenosos. E o
que é o silêncio das fazendas, tecidos de mugidos de boi e grunhidos de
porcos, arrematados pela lâmina afinada das manhãs dos galos?
Bem,
está porto que a densidade sonora dele existe e atua. Mas, quando se
ajeita no meio da comunicação entre os seres, aí este senhor se
esbalda. Tanto é que há quem tenha medo de nele cair. Ou, às vezes, a
gente sabe que, se deixar o silêncio ali entre os dois amantes, dois
amigos ou dois inimigos, este danado a quem ninguém nada explicitamente
perguntou, falará. E, mesmo não consultado, gritará. Está a serviço da
verdade e dela se vale para, sem voz, entregar, testemunhar, confirmar
o que nenhum dos dois ousara dizer. Quando se pergunta qualquer coisa,
“você vai ou não vai viajar comigo?”, “você abriu minha
correspondência?”. Ora, sabemos que se, antes de abrirmos a boca,
fizermos uma pausa (pequeno intervalo fabricado com tecido silente),
ela pode já significar a resposta, pode antecipá-la antes do som. Um
“tu me amas” perguntado, que recebe de volta uns olhos cabisbaixos e
lábios mudos pode querer acabar de vez e tristemente com a dúvida do
perguntador. Como o silêncio, sem nada falar, tudo diz, vibra como
enviado do que é e que ainda não foi dito. Reina nos lugares aonde
palavras ludibriadoras tentam de todo meio e sorte encobri-lo, catá-lo.
Logo a ele que tem o mesmo poder de ação de um verbo proferido.
Particularmente, acho que silêncio cada um tem o seu. Uns são longos,
chatos, vazios que dispersam o interlocutor. Outros, espertos,
curiosos, inteligentes, dramáticos, surpreendentes e cômicos, resultam
generosos na elucidação da narrativa. De minha parte, que dentro de
tantos inquietos sossegos, escrevo, e deles tanto me valho no palco e
na vida, dou meu troféu para aquela qualidade de silêncio que se faz
presente no fim de uma conversa depois de uma palavra que, além de
ofender, é injusta. Quando alguém, na maldade impensada das crueldades
cotidianas, diz: “Você foi VIL”, e você, ao invés de revidar logo, de
se defender, de se estabanar para provar sua inocência, deixar apenas
que o silêncio mova lentamente sua longa cauda, e, sob seu contraste,
acentue e dê moldura à palavra VIL, esta ficará ecoando, cortante,
dilacerante, protagonista como a última e infeliz palavra da mesa, a
última carta do jogo da oralidade. O silêncio vira fundo para que a
palavra e seus sentidos reverberem tanto, gemam tanto os seus intentos,
de modo que, caso o dono dela a garanta, caso tenha sido realmente
leviano, Dr. Silêncio, neste caso, é professor na artimanha de
devolvê-la em efeito bumerangue ao seu dizedor, que fica perdido no
lago do silêncio que o outro fez. A palavra volta para a boca de quem a
proferiu, mas volta , às bofetadas, caramelada de caco de vidro e com o
rabo entre as pernas de quem ficou sem ambiente. Há casos de o dono da
palavra não ter outra saída, a não ser arrepender-se amargamente do que
disse. Quando estamos corajosos, recolhemo-na a tempo e abrimos
imediatamente nosso processo de pedido de perdão por termos errado,
escolhido a má palavra. Quando estamos covardes, negamos tudo, até a
autoria, no desespero encoberto pela cara de pau: “quem disse isso?
Você está distorcendo. Eu não disse que você era vil, eu disse ‘você
viu’. Entendeu agora?”.
Inúteis os artifícios. Natural dublê da
verdade, o silêncio é o discurso dos inocentes e sempre falará como o
personagem mudo de texto mais contundente; aquele que, sem máscara ou
forma, rouba a cena e talvez seja o mais eloquente que há. Acho que
quero dizer que o silêncio, no tempo e no espaço, é o mais concreto dos
abstratos. 

Fonte


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