JotaPêAh!

Trecho de A ponte para o sempre

em 24/01/2010 01:56:44

Noite de quarta-feira, 21/12 Caro Richard:

É muito difícil saber como e por onde começar. Estive pensando por muito tempo e a fundo, através de muitas idéias, tentando encontrar um meio…

Finalmente me ocorreu uma pequena idéia, uma metáfora musical, através da qual pude pensar claramente e encontrar a compreensão, se não mesmo a satisfação. Quero partilhá-la com você. Assim, por favor, peço que me suporte, enquanto passamos por outra lição musical.

A forma mais comumente usada para as grandes obras clássicas é a da sonata. É a base de quase todas as sinfonias e concertos. Consiste de três partes principais: a exposição ou abertura, em que pequenas idéias, temas e miscelâneas diversas são lançados e apresentados uns aos outros; o desenvolvimento, em que essas pequenas idéias e motivos são explorados ao máximo, expandidos, muitas vezes passando de maior (feliz) para melhor (infeliz) e voltando, sendo desenvolvidos e entrelaçados em complexidade maior até que finalmente vem: a recapitulação, em que existe uma reapresentação, uma gloriosa expressão da maturidade plena e rica que as pequenas idéias alcançaram, através do processo de desenvolvimento.

Você pode perguntar como isso se aplica a nós, se ainda não percebeu.

Eu nos vejo embatucados numa abertura interminável. A princípio, foi a coisa real, pura delícia. É a parte de um relacionamento em que a pessoa se mostra em seu melhor: divertida, encantadora, excitada, excitante, interessante, interessada, e um tempo em que a pessoa se sente mais tranqüila e mais cativante, porque não experimenta a necessidade de levantar suas defesas; assim, a parceira aconchega um ser humano afetuoso, ao invés de um cacto gigantesco. É um tempo de prazer para ambos e não é de admirar que você goste tanto de aberturas que se empenhe em tornar a sua vida uma sucessão delas.

Mas os primórdios não podem ser prolongados interminavelmente; não podem simplesmente ser expostos e reexpostos. Devem seguir adiante e se desenvolverem — ou morrer de tédio. Não é bem assim, você diz. Deve se afastar, ter mudanças, outras pessoas, outros lugares, a fim de que possa voltar a um relacionamento, como se fosse novo, para ter constantes princípios novos.

Nós seguimos adiante numa sucessão prolongada de reaberturas. Algumas foram causadas por separações profissionais que eram necessárias, mas se mostraram desnecessariamente duras e rigorosas para duas pessoas tão chegadas como nós. Algumas foram fabricadas por você, a fim de dispor de mais oportunidades de voltar à novidade que tanto deseja.

Obviamente, a parte de desenvolvimento é um anátema para você. Pois é a parte em que você pode descobrir que tudo o que possui é uma coletânea de idéias bastante limitadas que não funcionam, não importa quanta criatividade lhes acrescente, ou — que é ainda pior para você — que tem o material para alguma coisa gloriosa, uma sinfonia, em cujo caso há trabalho a realizar: profundezas devem ser sondadas, entidades separadas cuidadosamente entrelaçadas, o melhor para glorificarem a si mesmas e umas às outras. Suponho que é análogo ao momento de escrever em que não se pode fugir ou não se deve fugir à idéia de um livro.

Não resta a menor dúvida de que fomos muito mais longe do que você jamais tencionou. E paramos pouco antes do que eu considerava como os nossos próximos passos, lógicos e maravilhosos. Tenho testemunhado o desenvolvimento com você continuamente contido, passei a acreditar que nunca faremos mais do que tentativas esporádicas em nosso potencial de aprendizado, em nossas espantosas similaridades de interesses, não importa quantos anos possamos ter — porque nunca teremos um tempo ininterrupto juntos. Assim, torna-se impossível o crescimento que tanto prezamos e sabemos que é possível.

Ambos tivemos uma visão de algo maravilhoso que nos aguarda. Contudo, não podemos chegar lá, a partir do ponto em que nos encontramos. Estou diante de uma sólida muralha de defesas e você tem a necessidade de construir mais e ainda mais. Anseio pela riqueza e plenitude do desenvolvimento adicional e você procurará meios de evitá-lo, enquanto estivermos juntos. Nós dois ficamos frustrados; você é incapaz de voltar, eu sou incapaz de seguir adiante, num estado de luta constante, com nuvens e sombras escuras sobre o tempo limitado que você nos concede.

Sentir a sua constante resistência a mim, ao crescimento desse algo maravilhoso, como se eu e isso fôssemos alguma coisa horrível — experimentar as várias formas que a resistência assume, algumas cruéis — muitas vezes me causa sofrimento, em um nível ou outro.

Tenho um registro de nosso tempo juntos e fiz uma análise profunda e sincera. Entristeceu-me e até mesmo me chocou, mas foi-me útil para enfrentar a verdade. Recordo os dias do princípio de julho e as sete semanas que se seguiram como nosso único período realmente feliz. Isso foi a abertura e foi linda. Depois, houve as separações, com os desligamentos arrebatados e para mim inexplicáveis — e a igualmente terrível evitação-resistência em suas voltas.

Longe e apartados ou juntos e apartados é uma situação por demais infeliz. Estou me observando virar uma criatura que chora muito, uma criatura que até deve chorar muito, pois quase parece que a compaixão é necessária antes que a bondade seja possível. E sei que não cheguei até este ponto da minha vida para me tornar digna de compaixão.

Ser informada que cancelar o seu encontro para me ajudar, quando eu me encontrava em estado de crise, “não daria certo para você”, fez com que a verdade desabasse em cima de mim com a força de uma avalanche. Encarando os fatos tão honestamente quanto me é possível, sei que não posso continuar, não importa o quanto assim deseje; não posso me inclinar ainda mais.

Espero que você não considere isto como o rompimento de um acordo, mas sim como a continuação dos muitos e muitos finais que você tem iniciado. Acho que é uma coisa que ambos devemos saber. Eu devo aceitar que fracassei em meu esforço de fazê-lo conhecer as alegrias da afeição.

Richard, meu precioso amigo, isto é dito suavemente, até mesmo ternamente, com amor. E os tons suaves não servem para camuflar uma raiva por trás; são autênticos. Não há acusações, responsabilidades ou culpas. Estou simplesmente tentando compreender e estancar a dor. Estou enunciando o que fui forçada a aceitar: que você e eu nunca teremos um desenvolvimento, muito menos a gloriosa expressão climática de um relacionamento desenvolvido ao máximo.

Tenho sentido que se alguma coisa em minha vida mereceu um afastamento de padrões anteriormente estabelecidos, indo além de todas as limitações conhecidas, foi justamente o nosso relacionamento. Suponho que poderia estar justificada em me sentir humilhada por todos os meus esforços para que desse certo. Em vez disso, porém, sinto-me orgulhosa de mim mesma e contente por saber que reconheci a rara e maravilhosa oportunidade que desfrutamos enquanto a tivemos. Dei tudo o que eu podia, no sentido mais puro e elevado, a fim de preservá-la. É o que me conforta agora. Neste momento horrível do final, posso sinceramente dizer que não conheço nenhuma outra coisa que poderia fazer para nos levar ao lindo futuro que poderíamos ter.

Apesar do sofrimento, estou feliz por tê-lo conhecido desta maneira especial e sempre guardarei na memória o tempo que passamos juntos. Cresci com você e aprendi muito. Sei também que fiz grandes e positivas contribuições a você. Ambos somos pessoas melhores por havermos entrado em contato.

A esta altura, tão tardia, ocorre-me que uma metáfora do xadrez poderia também ser útil. O xadrez é um jogo em que cada parte possui o seu próprio objetivo singular, mesmo quando se confronta com a outra; um meio do jogo em que se desenvolve e intensifica uma luta, em que se perdem fragmentos de cada lado, ambos ficando reduzidos; e um fim de jogo em que uma parte acua e paralisa a outra.

Creio que você vê a vida como uma partida de xadrez; eu vejo como uma sonata. E por causa dessas diferenças tanto o rei como a rainha são perdidos, a canção é silenciada.

Ainda sou sua amiga, como sei que você também é meu amigo. Envio esta carta com um coração repleto do mais profundo e terno amor, com toda a consideração que tenho por você, como não ignora, além de um imenso pesar por ficar incumprida uma oportunidade tão cheia de promessa, tão rara e tão bela.

Leslie


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