JotaPêAh!

Estudo de Morte e Vida Severina

em 22/01/2010 18:27:10
Título,
Estrutura e Enredo

Dois procedimentos
chamam à atenção de imediato no título do livro.
A inversão do sintagma vida e morte e a adjetivação
do substantivo próprio Severino. Tais recursos poéticos colaboram
para realçar aspectos importantes na composição da
obra. Segundo Marta de Senna:

“Ao
inverter a ordem natural do sintagma “vida e morte”, o poeta registra com
precisão a qualidade da vida que seu poema visa a descrever: uma
vida a que a morte preside. E ambas, morte e vida, têm por determinante
o adjetivo “severina”. Igualam-se nisso de serem ambas pobres, parcas,
anônimas. O procedimento de adjetivação do substantivo
é recorrente na poesia de Cabral, e aqui adquire especial relevo
por estar em posição privilegiada, no título da peça.
Morte e Vida Severina, porque é Severino o protagonista,
que, desde a apresentação, insiste no caráter comum
de seu nome, antes um “a-nome” no contexto em que vive. De substantivo
próprio, “Severino” passa a ser comum; daí a ser adjetivo
é um passo. (…) Será interessante advertir que o uso de
“severino” como adjetivo no auto cabralino não é senão
a reversão da palavra à sua origem. Diminutivo de “severo”,
“severino” é originariamente um adjetivo. Daí, passou a ser
nome próprio, como ocorreu em tantos outros casos nas línguas
ocidentais: Augusto, Cândido, Cristiano, Pio, Clemente – para citar
apenas alguns exemplos. Ora, o que Cabral realiza é exatamente o
retorno do adjetivo ao adjetivo, sendo o novo enriquecido da carga semântica
de que foi alimentado durante o “estágio” substantivo próprio,
que, no caso específico, é o Severino anônimo do sertão
nordestino.”

É
importante acrescentar que, além de descrever uma vida presidida
pela morte, o título também demonstra o percurso feito por
Severino durante a peça. Sai da morte para alcançar a vida.
A estrutura geral da peça, ou sua macroestrutura, apresenta exatamente
este caminho.
Morte
e Vida Severina se divide em 18 cenas ou fragmentos poéticos,
todos precedidos por um título explicativo de seu conteúdo,
praticamente resumos do que encontramos nos poemas em si. Podemos separá-los
em dois grandes grupos.
As primeiras
12 cenas descrevem a peregrinação de Severino, seguindo o
rio Capibaribe, fugindo da morte que encontra por toda parte, até
a cidade do Recife, onde, para seu desespero, volta a encontrar apenas
a miséria e a morte. Trata-se do Caminho ou Fuga da Morte.
Nesta parte o poeta habilmente alterna monólogos de Severino a diálogos
que trava ou escuta no caminho.
As últimas
6 cenas apresentam O Presépio ou O Encontro com a Vida, em
que é descrito o nascimento do filho de José, mestre carpina,
em clara alusão ao nascimento de Jesus. A peça se encerra,
portanto, com uma apologia da vida, mesmo que seja severina. Toda esta
parte, com exceção do monólogo final do mestre carpina,
foi adaptada por João Cabral de Melo Neto dos Presépios
ou Pastoris do folclore pernambucano

Vejamos, através
dos títulos explicativos, como o enredo do drama se constrói:

I
– Caminho ou Fuga da Morte

1. (Monólogo) – O retirante
explica ao leitor quem é e a que vai.
2.(Diálogo) – Encontra dois
homens carregando um defunto numa rede, aos gritos de: “ó irmãos
das almas! irmãos das almas! não fui eu que matei não!”
3. (Monólogo) – O retirante
tem medo de se extraviar porque seu guia, o rio Capibaribe, cortou
com o verão.
4. (Diálogo) – Na casa a
que o retirante chega estão cantando excelências  para
um defunto, enquanto um homem, do lado de fora, vai parodiando as palavras
dos cantadores.
5. (Monólogo) – Cansado da
viagem o retirante pensa interrompê-la por uns instantes e procurar
trabalho ali onde se encontra.
6. (Diálogo) – Dirige-se
à mulher na janela que depois descobre tratar-se de quem se saberá.
7. (Monólogo) – O retirante
chega à Zona da Mata , que o faz pensar, outra vez, em interromper
a viagem.
8. (Diálogo) – Assiste ao
enterro de um trabalhador de eito e ouve o que dizem do morto os amigos
que o levaram ao cemitério.
9. (Monólogo) – O retirante
resolve apressar os passos para chegar logo ao Recife.
10. (Diálogo) – Chegando
ao Recife, o retirante senta-se para descansar ao pé de um muro
alto e caiado e ouve, sem ser notado, a conversa de dois coveiros.
11. (Monólogo) – O retirante
aproxima-se de um dos cais do Capibaribe.
12. (Diálogo) – Aproxima-se
do retirante o morador de um dos mocambos que existem entre o cais e a
água do rio.

II
– O Presépio ou O Encontro com a Vida

13. (Presépio) – Uma mulher,
da porta de onde saiu o homem, anuncia-lhe o que se verá.

14. (Presépio) – Aparecem
e se aproximam, da casa do homem, vizinhos, amigos,

duas ciganas, etc.

15. (Presépio) – Começam
a chegar pessoas trazendo presentes para o recém-nascido.

16. (Presépio) – Falam as
duas ciganas que haviam aparecido com os vizinhos.

17. (Presépio) – Falam os
vizinhos, amigos, pessoas que vieram com presentes, etc.

18. (Conclusão da Peça)
– O carpina fala com o retirante que esteve de fora, sem tomar parte em
nada.Fonte


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