As histórias que me contam

Todos os dias, meus passageiros me contam histórias curiosas de suas
profissões.
Um deles me disse que é gerente de um grande
supermercado da capital. Ele contou que, certa feita, chegou um gringo
com cara de poucos amigos, com uma rapadura na mão, mandando chamar o
gerente – pelo visto, seria mais um cliente insatisfeito. Quando
perguntou no que poderia ser útil, o gringo puxou uma faca enorme da
cintura. Todos se afastaram!
O homem, então, pegou a faca, partiu um
pedaço da rapadura e ordenou que o gerente provasse. Meu passageiro,
apavorado, disse que colocou a rapadura na boca por alguns instantes e
logo cuspiu fora. Com cara de nojo, ordenou que o produto fosse trocado
ou o dinheiro devolvido imediatamente ao cliente, pois a rapadura estava
mesmo horrível. Ao que o gringo exclamou, indignado:
– Como assim,
horrível? Esta rapadura é fabricada por mim, eu vim aqui vendê-la para o
supermercado!

Ele também contou o caso de uma idosa que
pretendia processar o supermercado pela morte do seu cachorrinho.
Acontece que a velhinha costumava ir às compras com seu pequeno
cãozinho. Quando entrava na loja, ela colocava o bicho em uma sacola.
O
problema aconteceu quando o supermercado, para evitar furtos, passou a
colocar as sacolas dentro de um saco plástico lacrado. Quando acabou as
compras, a velhinha descobriu que seu cachorro havia morrido asfixiado!
Segundo meu passageiro, foi o maior reboliço.
Sugeri ao gerente que
seguisse meu exemplo e escrevesse um livro. O título poderia ser
Supertramas – diário de um supermercado.

Fonte

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Mais uma de motel

O passageiro chegou ao ponto e embarcou no meu táxi, no banco de trás.
Com a discrição de quem está fazendo algo errado, não deu o destino da
corrida, apenas foi ordenando que dobrasse à esquerda ou à direita.
Quando estávamos passando por um motel, ele pediu que eu entrasse.

Na portaria, a menina passou-lhe a chave do quarto 55 e perguntou se
alguém viria encontrá-lo. Ele disse que sim. Disse que informaria sua
acompanhante pelo telefone. Ela o procuraria pelo número do quarto.
Depois de deixá-lo no quarto 55, voltei para meu ponto, que não fica
muito longe do motel.
Quando cheguei novamente na ponta, uma
passageira embarcou. Ela apenas ordenou que eu fosse tocando em frente,
sem dizer onde ia. De imediato, relacionei com a última corrida. Será
que eu estava levando a amante do passageiro anterior? A cada nova
coordenada que a mulher me passava, minha suspeita se confirmava. Até
que, chegando perto do motel, ela mandou entrar. Bingo!
Acontece
que a mulher passou a corrida toda brigando com o celular, que estava
sem sinal. Por isso, ela não tinha conseguido falar com seu amante. Na
portaria do motel, percebi que já não era a mesma recepcionista da
corrida anterior. E agora?
Minha passageira não sabia informar em
que quarto seu namorado estava, a nova recepcionista também não, e eu
tinha a informação. Então, resolvi intervir.
Assim que informei
que o homem que ela procurava estava no quarto 55, a mulher tomou um
susto. Olhou-me com cara de braba. Afinal, quem eu estava pensando que
era?
Eu aguardei uns segundos, curtindo aquele momento
desconcertante, depois expliquei toda a coincidência. A recepcionista
ligou para o quarto 55 e confirmou o que eu estava dizendo. Só então
minha passageira relaxou.
No fim, ela acabou achando graça e me
agradecendo. Não tem por quê. 

Fonte

Novo sistema de arrecadação, tributação e fiscalização é avaliado por gerentes da SEFIN

Teve início esta semana uma série de reuniões entre os gestores das gerências da Secretaria Estadual de Finanças (SEFIN) e Coordenadoria da Receita Estadual (CRE/SEFIN) em Porto Velho, para realizarem o levantamento do novo sistema corporativo que modernizará os sistemas já existentes, de arrecadação, tributação e fiscalização. Além disso, o sistema, que está sendo desenvolvido pela Gerência de Informação (GEINF/CRE/SEFIN), envolverá toda a rotina administrativa da SEFIN.

De acordo com a secretária adjunta de Finanças, Marici Salete Baseggio, os trabalhos deverão se estender até a próxima terça-feira, dia 02 de fevereiro, e o projeto de implantação do sistema tem a finalidade de mudar o banco de dados para linguagem de programação para web. Isso significa, que o sistema da plataforma natural/adabas passará para a plataforma “java/oracle”. “A mudança para esse sistema vai possibilitar aos servidores do quadro da SEFIN acessar a rede da Secretaria de Finanças de qualquer lugar do mundo. Hoje o servidor só pode ter acesso à rede SEFIN de forma interna. Para quem faz auditoria esta será uma mudança importante. Até mesmo para quem lida com o atendimento poderá dar suporte ao contribuinte ou usuário de qualquer lugar”, enfatiza.

A secretária esclarece que essa integração entre os sistemas de arrecadação e fiscalização entre Secretaria de Finanças e Coordenadoria da Receita Estadual, trará maior modernização e consequentemente maior acompanhamento das ações da SEFIN e aumento da arrecadação estadual.

O responsável pela área técnica de informática da Secretaria de Finanças, Telêmaco Walter Leão Guedes, destaca outra vantagem na aplicação do sistema. “Atualmente nosso sistema funciona com três bancos de dados. Com o java/oracle em funcionamento a SEFIN terá apenas um banco de dados. O que será mais fácil, e agilizará consideravelmente o cruzamento interno de informações. Para o contribuinte, vai dar maior agilidade no atendimento com informações de dados consistentes”, esclarece.

As reuniões acontecem simultaneamente nos diversos setores da SEFIN. Na Gerência de Administração e Finanças (GAF/SEFIN), os gestores estão fazendo o levantamento das necessidades dos sistemas que serão precisos para serem desenvolvidos. Nas demais gerências, os gestores definem a criação do novo conceito de aplicação do cadastro geral que engloba contribuintes, usuários e servidores.Fonte

Controle MultiPage

Loop Through UserForm Controls

Excel VBA UserForms and their associated controls are a great way to present/collect

data from users. There are often occasions however when we need to loop through

all controls on a UserForm, or only certain specified controls.

Loop Through All Controls

Use the code below to loop through all Controls on a UserForm

Private Sub CommandButton1_Click()

Dim cCont As Control

For Each cCont In Me.Controls

‘DO STUFF HERE

Next cCont

End Sub

Loop Through Specific/Specified Controls

Use the code below to loop through only specified Controls on a UserForm.

Private Sub CommandButton1_Click()

Dim cCont As Control

For Each cCont In Me.Controls

If TypeName(cCont) = “TextBox” Then

‘DO STUFF HERE

End If

Next cCont

End Sub

Loop Through Specific Controls on a Specified Page of a MultiPage

Control

Use the code below to loop through only specific Controls on a specified page of

a MultiPage Control. Note that Pages(0) is always the first page of any MultiPage

Control.

Private Sub CommandButton1_Click()

Dim cCont As Control

For Each cCont In Me.MultiPage1.Pages(0).Controls

If TypeName(cCont) = “TextBox” Then

‘DO STUFF HERE

End If

Next cCont

End Sub

Loop Through Specified Controls on all Pages of a MultiPage Control

Use the code below to loop through specified controls on all pages of a MultiPage

Control.

Private Sub CommandButton1_Click()

Dim pPage As Page, cCont As Control

For Each pPage In Me.MultiPage1.Pages

For Each cCont In pPage.Controls

If TypeName(cCont) = “ComboBox” Then

‘DO STUFF HERE

End If

Next cCont

Next pPage

End Sub

Trecho de A ponte para o sempre – Richard e Leslie se reconciliam

Fiquei olhando pela janela para o nada, um barulho estrondeando em minha cabeça.
Ela está errada. É claro que está errada. A mulher não compreende quem eu sou ou como penso.
É uma pena, pensei.
Depois, amassei a carta e joguei-a para longe.

Nada mudara além da janela uma hora depois.

Por que minto para mim mesmo?, pensei. Ela está certa e sei que está, mesmo que nunca o admita, mesmo que nunca mais torne a pensar nela.

Sua história da sinfonia e do xadrez… por que não percebi essas coisas? Sempre fui tão terrivelmente inteligente, exceto em relação a impostos, mais perceptivo do que qualquer outra pessoa que já viveu… como ela pode perceber essas coisas, quando eu não posso? Não sou tão brilhante quanto ela? Contudo, se ela é tão esperta, onde está o seu sistema, seu escudo para evitar o sofrimento? Eu tenho a minha Mu…

AO DIABO com a sua Mulher Perfeita! É um pavão de meia tonelada que você inventou, guarnecendo de penas falsas, cores estranhas, que nunca voará! Seu pavão pode correr em círculos, bater as asas e guinchar ao invés de cantar, mas nunca será capaz de deixar o solo. E você, apavorado com o casamento, sabia que casou com isso?

A imagem, um pequeno eu numa fotografia de casamento, com um pavão de seis metros, era verdadeira! Eu me casara com uma idéia que era errada.

Mas tinha a restrição à minha liberdade! Se eu ficar com Leslie, acabarei entediado!

Foi mais ou menos nesse momento que me dividi em duas pessoas diferentes: o eu que comandara as coisas por tanto tempo e um arrivista querendo destruí-lo.

O tédio é a menor de suas preocupações, seu filho da puta, disse o recém-chegado. Não percebe que ela é mais esperta do que você, conhece mundos que você tem medo de tocar? Vá em frente, encha a minha boca de algodão e me afaste, como faz com todas as outras partes de você que se atrevem a dizer que suas teorias onipotentes estão erradas! É livre para fazer isso, Richard. E é livre para passar o resto de sua vida em relacionamentos superficiais com mulheres, tão apavorado quanto é da intimidade. O igual atrai o igual, seu arrogante. A menos que tivesse um mínimo de bom senso, que não tem a menor possibilidade de encontrar nesta vida, pertence à sua ficção covarde e assustada da Mulher Perfeita, até morrer de solidão.

Você é tão cruel quanto gelo. Pertence a seu xadrez cruel-como-gelo e a seu céu cruel-como-gelo; arruinou uma oportunidade gloriosa com aquele seu império asnático; agora, toda a coisa é um monte de estilhaços com um governo… e tudo penhorado a um governo!

Leslie Parrish era uma oportunidade mil vezes mais gloriosa do que qualquer império, mas ficou apavorado porque ela é mais esperta do que você jamais será e por isso vai alijá-la também. Ou foi ela quem o alijou? Não vai magoá-la, companheiro, porque ela não é uma perdedora. Ficará triste e chorará por algum tempo, porque não tem medo de chorar quando morre alguma coisa que podia ter sido linda. Mas ela haverá de superar, de se elevar acima de tudo.

Você também vai superar, em cerca de um minuto e meio. Basta fechar as suas malditas portas de aço, batê-las com toda força e nunca mais pensar nela outra vez. Ao invés de se erguer acima, irá direto para o fundo. Não se passará muito tempo para que seja um sucesso espetacular em suas tentativas de suicídio subliminares, despertando angustiado porque recebeu uma vida de fogo-e-prata, de diamante-laser, pegou o seu martelo e destruiu tudo. Está diante da maior opção de sua vida e sabe disso. Ela resolveu não aturar mais seu selvagem medo estúpido e sente-se feliz neste momento por estar livre do peso morto que é você.

Vá em frente, faça o que sempre fez: fuja. Corra para o aeroporto, acione o seu avião e decole pela noite. Voe, voe! Encontre uma boa moça com um cigarro numa das mãos e um copo de rum na outra, observe-a usá-lo como um degrau para o algo melhor de que você fugirá esta noite. Corra, seu estúpido covarde. Corra para me calar. A próxima vez em que me verá é o dia de sua morte e poderá então me contar qual é a sensação depois que queimou a sua última ponte…

Bati as portas sobre o barulho e a sala ficou tão silenciosa quanto o mar.

— Não somos emocionais! — declarei em voz alta.

Peguei a carta, recomecei a lê-la, deixei que caísse de novo na cesta.

Se ela não gosta de quem eu sou, é muita gentileza sua dizer isso. É uma pena… se ao menos ela fosse diferente, poderíamos permanecer amigos. Mas não posso admitir o ciúme! Ela pensa que sou sua propriedade pessoal, que decide com quem passo meu tempo e quando? Eu disse a ela claramente quem sou, o que penso e como pode esperar que leve a minha vida, mesmo que não seja a simulação do eu-te-amo que está querendo de mim. Pois não terá o eu-te-amo de mim, Leslie Parrish. Serei sincero comigo mesmo, embora isso me custe o transbordamento de alegria de cada momento feliz que passamos juntos.

Uma coisa que eu nunca fiz, minha cara Leslie… nunca menti, lesei-a ou enganei-a; vivi o que acredito exatamente como lhe disse que faria. Se isso agora se torna inaceitável para você, não há outro jeito; lamento e gostaria que tivesse me avisado antes, o que pouparia muitos problemas a ambos.

Partirei amanhã, ao nascer do sol, pensei. Levarei minhas coisas para o avião e decolarei a caminho de um lugar em que nunca estive antes. Wyoming, talvez Montana. Deixo o avião para a Receita Federal, se puderem encontrá-lo, e desapareço. Tomo emprestado um biplano em algum lugar e sumo por completo.

Mudo meu nome. Winnie-the-Pooh, a personagem das histórias infantis, viveu sob o nome de Sanders. Eu também posso fazer a mesma coisa. Será divertido. James Sanders. Podem ficar com as contas bancárias e os aviões, com tudo o mais que quiserem. Ninguém jamais saberá o que aconteceu com Richard Bach, o que será um alívio bendito.

Qualquer coisa que eu venha a escrever, se é que alguma coisa, será com o novo nome. Posso fazer isso, se quiser. Largar tudo. Talvez James Sanders vagueie até o Canadá, viaje para a Austrália. Talvez o velho Jim se perca nas florestas de Alberta ou vá para o sul, até Sunbury ou Whittlesea, voando um Tiger Moth. Ele pode aprender australiano, transportar uns poucos passageiros, o suficiente para sobreviver.

E depois…

E depois…

E depois o que, Sr. Sanders? É o governo quem está assassinando Richard Bach ou você? Quer matá-lo porque Leslie o cortou? Sua vida será tão vazia sem ela que não faz diferença para você se ele morrer?

Pensei a respeito por muito tempo. Seria excitante decolar, mudar de nome, fugir. Mas… é isso o que você mais quer?

É essa a sua maior verdade?, ela perguntaria.

Não.

Sentei-me no chão, encostado na parede.

Não, Leslie, essa não é a minha maior verdade.

A minha maior verdade é que tenho muito o que aprender sobre amar outra pessoa. A maior verdade é de que a minha Mulher Perfeita é boa, na melhor das hipóteses para um pouco de conversa, um pouco de sexo… ligações transitórias, procurando afastar a solidão. Ela não é o amor que o garoto no portão tinha em mente, há tanto tempo.

Eu sabia o que estava certo quando era o garoto e novamente quando deixei de perambular de avião: encontrar minha companheira- da-vida-alma-eterna-anjo-convertido-em-mulher com quem aprender e para amar. Uma mulher que desafiará o inferno a sair de mim, que me forçará a mudar, crescer, prevalecer, quando de outra forma fugiria.

Leslie Parrish podia ser a pessoa errada. Podia não ser a minha alma-irmã que vinha me encontrar no caminho ao seu encontro. Mas ela é a única… tem a mente de Leslie no corpo de Leslie, uma mulher por quem não tenho de sentir pena, não tenho de salvar, não tenho de explicar a ninguém, a qualquer lugar que vá. E ela é tão esperta que a pior coisa que poderia acontecer é que eu aprendesse muito antes que me deixasse.

Se uma pessoa é bastante cruel, pensei, bastante antivida, até mesmo sua alma-irmã se afasta, deixando-a sozinha, disposta a esperar por outra vida, antes de um novo alô.

E se eu não fugir? O que tenho a perder além da minha centena de toneladas de placas de aço, que deveriam me proteger dos sofrimentos? Estendo as asas sem a blindagem e talvez eu possa voar bastante bem para não ser abatido. Na próxima vez posso mudar meu nome para Sanders e decolar para Port Darwin!

Aquele falador atrevido a quem eu calara estava certo. Abri as portas, pedi desculpas, deixei-o em liberdade; contudo, ele não disse mais nenhuma palavra.

Eu estava diante da maior opção de minha vida, ele não precisava dizê-lo novamente.

Isso não poderia ser um teste, planejado por uma centena de outros aspectos de mim, de diferentes planetas e tempos? Estarão reunidos neste momento por trás de um espelho de visão só por um lado, observando-me, esperando que eu largue o aço? Ou estarão rezando para que eu resista? Por acaso farão apostas sobre o que farei?

Se isso acontece, eles se mantêm muito quietos por trás de seu espelho. Não há qualquer som. Até mesmo o troar em minha cabeça desapareceu.

A estrada se dividiu em duas direções, à minha frente.

Os dois futuros eram duas vidas diferentes: Leslie Parrish ou minha tão segura Mulher Perfeita?

Escolha, Richard. Agora. Está virando noite lá fora. Qual delas?

— Alô? — A voz estava sem fôlego, quase abafada por guitarras e tambores.

— Leslie? Sou eu, Richard. Sei que é tarde, mas você tem tempo para conversar?

Não houve resposta. A música trovejou, enquanto eu esperava pelo estalido do seu telefone sendo desligado. Toda aquela luta com opções, pensei, e a decisão já foi tomada; Leslie não estava mais interessada em gente como eu.

— Tenho, sim — disse ela, finalmente. — Deixe-me desligar a música. Eu estava dançando.

O telefone ficou mudo e um momento depois ela voltou.

— Oi.

— Oi. Recebi sua carta.

— Ótimo.

Levantei o telefone e comecei a andar, para a esquerda e direita, sem saber que me movia.

— Quer realmente parar com tudo, sem mais nem menos?

— Não tudo — respondeu Leslie. — Espero que ainda possamos trabalhar juntos no filme. E gostaria de continuar a pensar em você como meu amigo, se não se incomoda. A única coisa com que desejo parar é o sofrimento.

— Eu jamais quis magoá-la.

Não é possível para mim magoá-la, pensei. Ninguém pode ser magoado a menos que se sinta primeiro magoado…

— Pois dói de qualquer forma, Richard. Acho que não sou muito boa em relacionamentos abertos. A princípio não houve qualquer problema, mas depois éramos tão felizes juntos! Desfrutávamos tanto prazer, nós dois! Por que continuar a se dividir por pessoas que não tinham importância ou por princípios abstratos? Simplesmente não dava certo.

— E por que não dava certo?

— Eu tinha uma gata. Amber, uma persa grande e peluda. Passávamos juntas cada minuto que eu estava em casa. Ela jantava ao mesmo tempo que eu, sentávamos juntas para escutar música, ela dormia em meu ombro à noite. Cada uma sabia o que a outra estava pensando. E depois Amber teve filhotes. Tão lindos quanto podiam ser. Absorviam seu tempo e amor, absorviam meu tempo e amor. Amber e eu não estávamos mais juntas a sós, tínhamos de cuidar dos filhos, distribuímos nosso amor. Nunca me senti tão chegada a ela depois que os gatinhos nasceram, ela nunca foi tão chegada a mim, até o dia em que morreu.

— A profundeza da intimidade que sentimos é inversamente proporcional ao número de outras pessoas em nossas vidas? — Temendo que ela encarasse a pergunta como um escárnio, acrescentei: — Acha que você e eu deveríamos ter sido exclusivos um para o outro?

— Isso mesmo. Aceitei as suas muitas namoradas, a princípio. O que fazia quando não estava comigo era somente da sua conta. Mas quando Deborah surgiu, o princípio de Deborah, como você diria, compreendi subitamente que estava transferindo o seu harém para oeste e planejava me incluir. Não quero isso, Richard.

“Sabe o que aprendi com você? Aprendi o que é possível e agora devo resguardar o que pensei que nós tínhamos. Quero estar ligada a alguém que respeito, admiro e amo, alguém que sinta a mesma coisa em relação a mim. Isso ou nada. Compreendi que aquilo que você está procurando não é a mesma coisa que eu procuro. Você não quer o que eu quero.

Parei de andar, sentei-me no braço do sofá. A escuridão entrava pelas janelas e me envolvia.

— O que você pensa que eu quero?

— Exatamente o que você tem. Muitas mulheres que conhece um pouco e de quem não gosta muito. Ligações superficiais, uso mútuo, nenhuma possibilidade de amor. Essa é a minha idéia de inferno. O inferno é um lugar, um tempo, uma consciência, Richard, em que não há amor. Horrível! Deixe-me fora disso.

Ela falava como se a sua decisão estivesse tomada e a minha também. Como se não houvesse qualquer possibilidade de esperança. Não pedia coisa alguma; estava me comunicando a sua verdade maior, sabendo que eu nunca concordaria.

— Eu tinha o maior respeito e admiração por você, Richard. Pensava que era a pessoa mais maravilhosa que já conhecera. Agora, começo a descobrir em você coisas que não quero ver. E gostaria de terminar pensando que você é maravilhoso.

— O que eu temia, Leslie, é que começássemos a possuir um ao outro. Minha liberdade é tão importante para mim quanto…

— Sua liberdade para fazer o quê? Sua liberdade para não ser íntimo? Sua liberdade para não amar? Sua liberdade para se abrigar contra a alegria na inquietação e no tédio? Tem razão… se continuássemos juntos, eu não haveria de querer que você tivesse essas liberdades.

Grande!, pensei, como se as suas palavras fossem um lance de xadrez.

— Falou muito bem… — murmurei. — Compreendo agora o que está dizendo. Obrigado.

— Não há de quê.

Mudei o telefone para o outro ouvido. Algum dia um mágico ainda inventará um telefone que não será incômodo depois de um minuto.

— Acho que há muito para dizer. Há alguma possibilidade de nos encontrarmos e conversarmos um pouco?

Uma pausa e depois:

— Eu preferia que não. Não me incomodo de falar pelo telefone, mas não quero vê-lo pessoalmente, pelo menos por algum tempo. Espero que compreenda.

— Claro. Não há problema. Tem de desligar agora?

— Não. Posso continuar no telefone.

— Acha que há alguma possibilidade de nós dois ainda podermos ser bem chegados? Jamais conheci alguém como você e creio que sua idéia de amizade é uma carta cordial e um aperto de mão ao final de cada ano fiscal.

Ela riu.

— Ora, não é tanto assim. Um aperto de mão semestral. Ou trimestral, já que fomos tão bons amigos. Só porque a nossa ligação amorosa não durou, Richard, isso não significa que fracassou. Creio que aprendemos o que precisávamos aprender.

— Talvez a liberdade de que eu falava… uma grande parte… talvez seja a liberdade de mudar, de ser diferente na próxima semana do que sou hoje. E se duas pessoas estão mudando em direções diferentes…

— Se mudamos em direções diferentes, Richard, então não temos qualquer futuro, não é mesmo? Acho que é possível para duas pessoas mudarem juntas, crescerem juntas e enriquecerem ao invés de se diminuírem mutuamente. A soma de um e um, se são os certos, pode ser o infinito! Mas quase sempre uma pessoa arrasta a outra para baixo. Uma pessoa quer subir como um balão e a outra é um peso morto. Sempre me perguntei o que seria se as duas pessoas, um homem e uma mulher, quisessem subir como balões!

— Conhece casais assim?

— Uns poucos.

— Quantos?

— Dois. Três.

— Pois não conheço nenhum, Isto é… conheço um. Entre todas as pessoas que conheço, apenas um casamento feliz. O resto é… ou a mulher é uma alegria e o homem um peso morto ou o inverso. Quando ambos não são pesos mortos. Dois balões são extremamente raros.

— Pensei que pudéssemos ser assim, Richard.

— Seria maravilhoso.

— Tem razão.

— O que acha que seria necessário para voltarmos a ser como éramos, Leslie?

Senti que ela queria dizer “Nada”, mas não falava porque seria precipitação. Estava pensando a respeito e por isso não a espicacei, não a apressei,

— Creio que nada poderia nos levar de volta ao jeito que éramos. Não quero isso. Tentei ao máximo mudar. Tentei até sair com outros homens quando você estava ausente, querendo descobrir se podia equilibrar a sua Mulher Perfeita com o meu Homem Perfeito. Não deu certo. Chato, chato, chato. Sem a menor graça. Uma estúpida perda de tempo. Não sou uma de suas garotas de programa, Richard. Mudei tanto quanto estou disposta a mudar. E se você quer restabelecer a sua ligação comigo, então é a sua vez de mudar.

Fiquei rígido.

— Que tipo de mudança você ofereceria por minha consideração?

A pior coisa que ela poderia dizer seria algo que eu não teria condições de aceitar, pensei, o que não era pior do que tínhamos naquele momento. Leslie pensou por algum tempo, antes de responder:

— Sugeriria que considerássemos uma ligação amorosa exclusiva, somente você e eu. Uma chance de descobrirmos se somos dois balões.

— Eu não seria livre… teria de suspender totalmente os encontros pessoais com as minhas amigas?

— Isso mesmo. Todas as mulheres com quem você vai para a cama. Nenhuma outra ligação amorosa.

Foi a minha vez agora de ficar calado e a dela de esperar calmamente no outro lado da linha. Eu me sentia como um coelho acuado por caçadores. Os homens que eu conhecia e que aceitaram tais condições, depois se arrependeram. Foram alvejados implacavelmente e só conseguiram sobreviver por um triz.

E, no entanto, como eu era diferente com Leslie! Somente com ela podia ser o tipo de pessoa que mais gostava de ser. Não era tímido com ela, não me mostrava contrafeito. Admirava-a, aprendia com ela. Se Leslie queria me ensinar a amar, eu podia pelo menos fazer uma tentativa.

— Você e eu somos muito diferentes, Leslie.

— Somos diferentes e somos iguais. Você pensava que nunca encontraria uma palavra para dizer a uma mulher que não pilotasse aviões. Eu não podia me imaginar passando qualquer tempo com um homem que não amasse música. Não seria possível que o mais importante não seja sermos iguais, mas sim curiosos? Porque somos diferentes, podemos ter a diversão de trocar mundos, dar um ao outro nossas paixões e emoções. Você pode aprender música, eu posso aprender a voar. E isso é apenas o começo. Creio que continuaria para nós por tanto tempo quanto vivêssemos.

— Vamos pensar a respeito, Leslie… vamos pensar a respeito. Ambos tivemos casamentos e quase-casamentos, ambos tivemos cicatrizes, prometemos que não voltaríamos a cometer erros. Não vê qualquer outra possibilidade de continuarmos juntos do que tentar… do que tentar sermos casados?

— Dê-me algumas sugestões.

— Eu me sentia muito feliz do jeito que era, Leslie.

— Muito feliz não é o suficiente. Posso ser mais feliz sozinha, sem ter de escutá-lo a inventar desculpas para fugir, para me afastar, para construir muralhas contra mim. Serei a sua única amante ou não serei a sua amante. Tentei a coisa pela metade e não dá certo… não para mim.

— É muito difícil… o casamento tem tantas limitações…

— Detesto o casamento tanto quanto você, Richard, quando torna as pessoas apáticas e insípidas, quando as torna enganadoras ou as encerra em gaiolas. Tenho evitado por mais tempo do que você, pois já se passaram 16 anos desde o meu divórcio. Mas sou diferente de você numa coisa… acredito que há outro tipo de casamento que nos deixa mais livres do que jamais poderíamos ser sozinhos. Não há muita possibilidade de que você compreenda isso, mas creio que nós dois poderíamos ser assim. Uma hora atrás eu diria que não havia a menor possibilidade. Não poderia imaginar que você telefonaria.

— Ora, deixe disso. Você sabia que eu ligaria.

— Não sabia, não. Pensei que jogaria a minha carta no lixo e partiria para qualquer lugar em seu avião.

Leitora de pensamentos, pensei. Acionei outra vez a imagem da minha fuga para Montana. Muita ação, novas paisagens, novas mulheres. Mas era tedioso sequer pensar a respeito. Já fiz isso, pensei, sei como é, conheço cada parte na superfície; não me comove, não me muda, não importa. É ação que não significa coisa alguma. Por isso vôo para longe… e daí?

— Eu não partiria sem uma palavra. Não iria embora deixando-a furiosa comigo.

— Não estou furiosa com você.

— Apenas o bastante para acabar com a mais linda amizade que já tive.

— Não estou realmente furiosa com você, Richard. Fiquei furiosa e desesperada naquela noite. Depois, me senti triste e chorei. Mas parei de chorar e pensei muito. Compreendi finalmente que você está sendo a melhor pessoa que sabe ser, que tem de viver com isso até mudar. E ninguém, além de você, poderá fazer com que isso aconteça. Como posso estar furiosa por você fazer o melhor de que é capaz?

Senti uma onda de calor no rosto. Que pensamento difícil e cheio de amor! Era incrível que ela compreendesse, naquele momento, que eu estava fazendo o melhor que sabia! Quem mais no mundo inteiro compreenderia isso? O arroubo de respeito por Leslie desencadeou uma suspeita de mim mesmo.

— E se eu não estiver fazendo o melhor?

— Então estou furiosa com você.

Ela quase riu quando disse isso e relaxei um pouco, no sofá. Se ela podia rir, não era o fim do mundo. Ainda não.

— Poderíamos escrever um contrato, chegar a um acordo definido e objetivo das mudanças exatas que queremos?

— Não sei, Richard. Parece um jogo e é importante demais para isso. Um jogo e sua litania de velhas frases, de velhas defesas. Não quero mais isso. Se você tem de se defender contra mim, se tenho de provar interminavelmente que sou sua amiga, que o amo e não vou magoá-lo, destruí-lo ou entediá-lo até a morte, então não dá. Acho que você me conhece bastante bem e sabe como se sente em relação a mim. Se tem medo, então tem medo. Eu o deixarei partir e me sentirei muito bem por isso. Vamos deixar assim. E continuamos amigos, está bem?

Pensei no que ela acabara de dizer. Eu me acostumara a estar certo, a prevalecer em qualquer debate. Mas agora, por mais que tentasse encontrar fios soltos em seu pensamento, não conseguia. Sua argumentação só ruiria se estivesse me mentindo, se estivesse a fim de me magoar, trapacear ou destruir. E nisso eu não podia acreditar. O que ela podia fazer com qualquer outro, eu sabia, também poderia fazer comigo um dia. E eu nunca a vira enganar ninguém ou desejar o mal a qualquer pessoa, até mesmo aos que lhe haviam sido cruéis. Ela os perdoara, até o último, sem ressentimentos.

Se eu me permitisse a palavra, naquele momento, diria que estava apaixonado por ela,

— Você também está fazendo o seu melhor, não é mesmo, Leslie?

— Estou, sim.

— Não lhe parece estranho que seríamos a exceção, você e eu, quando quase mais ninguém consegue fazer com que a intimidade dê certo? Sem gritos e sem bater de portas, sem perder o respeito, sem tédio?

— Não acha que você é uma pessoa excepcional, Richard? E não acha que eu também sou?

— Somos diferentes de todas as pessoas que já conheci.

— Se eu ficar furiosa com você, não creio que haja nada de errado em gritar e bater portas. Ou arremessar coisas, se ficar bastante furiosa para isso. Mas não significaria que não o amo mais. E isso não faz qualquer sentido para você, não é mesmo?

— Absolutamente nenhum. Não há qualquer problema que não possamos resolver com calma e discussão racional. Quando discordamos, o que há de errado em dizer “Leslie, eu discordo e estas são as minhas razões”? E depois você me diz: “Tem toda razão, Richard. Suas razões me convenceram que o seu é o melhor caminho.” E tudo termina por aí. Não há cacos para varrer ou portas para consertar.

— Não é bem assim, Richard. Os gritos surgem quando eu me sinto assustada, quando penso que não está me ouvindo, Talvez até escute as minhas palavras, mas não está compreendendo. E eu me sinto apavorada que você faça alguma coisa que magoe a nós dois, que nos levará ao arrependimento. Percebo um meio de evitar e, se você não ouve, tenho de falar em voz bastante alta para que preste atenção.

— Está querendo dizer que não precisará gritar se eu prestar atenção?

— Isso mesmo. Provavelmente não terei de gritar. E mesmo que eu o faça, tudo acabará em poucos minutos. Recupero o controle e me acalmo.

— Enquanto isso, eu permaneço todo encolhido e assustado…

— Se não quer a ira, Richard, então não me deixe furiosa! Eu me tornei uma pessoa bastante calma e ajustada. Não vivo prestes a explodir pela menor coisa. Mas você é uma das pessoas mais egoístas que já conheci. Precisei da minha raiva para impedir que você me pisoteasse, para que ambos soubéssemos quando é o bastante.

— Eu lhe disse que era egoísta há muito tempo. Prometi que sempre agiria de acordo com o que julgasse o meu melhor interesse e esperava que você fizesse a mesma coisa…

— Poupe-me as suas definições, por favor! É por não pensar sempre em si mesmo, se conseguir isso, que poderá algum dia ser feliz. Até que abra espaço em sua vida para alguém que lhe seja tão importante quanto você mesmo, será sempre solitário, procurando, perdido…

Conversamos durante horas, como se o nosso amor fosse um fugitivo apavorado, parado de olhos arregalados numa platibanda no 12º andar, determinado a pular, no instante em que parássemos de tentar salvá-lo.

Continue falando, pensei. Se continuarmos a falar, ele não vai saltar e cair gritando para a rua. Contudo, nenhum dos dois queria que o fugitivo vivesse, a menos que fosse são e forte. Cada comentário e idéia que partilhávamos era um vento soprando pela platibanda — às vezes o nosso futuro comum cambaleava à beira da platibanda, em outras se encostava trêmulo na parede.

Quanta coisa morreria se ele caísse! As horas maravilhosas apartadas do tempo, quando éramos a única coisa que importava um para o outro, quando eu me deliciava ofegante com aquela mulher. Tudo levará a nada, a pior do que nada: a esta perda terrível.

O segredo de encontrar alguém para amar, ela me dissera um dia, é primeiro encontrar alguém de quem gostar. Fôramos os melhores amigos muito antes de nos tornarmos amantes. Eu gostava dela, admirava, confiava. Isso mesmo, confiava! Agora, tanta coisa boa pesava na balança.

Se nosso fugitivo escorregasse, os wookies morreriam na queda. O porco atracado a um sundae, a feiticeira, a deusa do sexo; o Bantha morreria, o xadrez, os filmes e o pôr-do-sol desapareceriam para sempre. Os dedos de Leslie voando sobre o teclado. Eu nunca mais tornaria a ouvir a música de Johann Sebastian, nunca mais escutaria as suas harmonias secretas, porque aprendera-as com Leslie. Nunca mais haveria outro teste sobre um compositor, nunca mais veria flores sem pensar nela, nunca mais teria uma pessoa tão íntima. Construa mais muralhas, ponha pontas de ferro no topo, depois construa mais muralhas por dentro destas, mais pontas de ferro…

— Você não precisa de suas muralhas, Richard. Se nunca mais tornarmos a nos ver, será que não pode perceber que as muralhas não representam qualquer proteção? Só servem para isolá-lo!

Ela está tentando ajudar, pensei. Nos minutos finais da nossa separação, esta mulher quer que eu aprenda. Como podemos deixar um ao outro?

— E Porco… Porco não… não precisa morrer… Cada 4 de julho… eu prometo… farei um sundae… com calda de chocolate… e lembrarei… meu querido Porco…

Ela não conseguiu continuar. Ouvi-a comprimindo o telefone contra um travesseiro. Oh, Leslie, não, pensei, escutando o silêncio sufocado das penas. Tem mesmo de desaparecer, nossa cidade encantada de dois, uma miragem que só surge uma vez na vida, apenas para se desvanecer no nevoeiro e no mundo do cotidiano? O que está nos matando?

Se algum estranho interviesse, tentasse nos separar, levantaríamos as garras e o mandaríamos para o inferno. Mas este é um trabalho interno, o forasteiro sou eu!

E se somos almas-irmãs?, pensei, enquanto ela chorava. E se somos as pessoas que procuramos por todas as nossas vidas? Tivemos um contato e partilhamos este breve gosto do que pode ser o amor na Terra. E agora, por causa dos meus medos, vamos nos separar e nunca mais nos encontrar? Continuarei pelo resto dos meus dias a procurar pela mulher que já encontrei e estava apavorado demais para amar?

As coincidências impossíveis!, pensei, que nos levaram a encontrar num momento em que nenhum dos dois estava casado ou comprometido com o casamento, quando nenhum dos dois estava devotado a representar, escrever, viajar, procurar aventuras ou envolvido cegamente em qualquer outra atividade. Nós nos conhecemos no mesmo planeta, na mesma era, na mesma idade, crescendo na mesma cultura. Se tivéssemos nos encontrado anos antes, não teria acontecido… e nos encontramos antes, viajando num elevador, só que não era o tempo certo. E nunca mais tornará a ser o tempo certo.

Fiquei andando de um lado para outro, um semicírculo na extensão do fio do telefone. Se eu concluir dentro de 10 ou 20 anos que não deveria tê-la largado, onde ela estará então? E se eu voltar daqui a 10 anos para dizer Leslie, desculpe!, descobrindo que ela se tornou a Sra. Leslie Parrish-Alguém? E se não conseguir encontrá-la, descobrir a casa vazia, ela se mudando sem deixar o novo endereço? E se ela estiver morta, por alguma coisa que nunca a teria matado se eu não tivesse voado amanhã?

— Desculpe — murmurou Leslie, voltando ao telefone, as lágrimas sob controle. — Sou uma tola. Gostaria às vezes de ter o seu controle. Você sabe manipular as despedidas muito bem, como se não tivessem a menor importância.

— Tudo depende de decidir quem está no comando — expliquei, contente pela mudança de assunto. — Se deixarmos nossas emoções comandarem, então momentos como este não são muito divertidos.

— Tem razão — disse ela, fungando. — Não são mesmo divertidos.

— Finja que é amanhã agora, talvez o próximo mês. Como se sente então? Tento isso e não me sinto melhor sem você. Imagino o que é estar sozinho, sem ninguém para falar por nove horas pelo telefone, pagando uma conta de 100 dólares por uma ligação local. Sentirei muita saudade de você.

— Também sentirei saudade de você. Richard, como se leva alguém a olhar além de uma esquina quando ele ainda não chegou lá? A única vida que vale a pena viver é a mágica e esta é magia! Eu daria qualquer coisa para que você pudesse ver o que há para nós… — Ela parou por um momento, pensando no que mais dizer. — Mas se está fora de vista para você, acho que não existe, não é mesmo? Mesmo que eu esteja olhando, não está realmente ali.

Ela parecia cansada, resignada. E prestes a desligar. Se era porque eu estava cansado e apavorado, talvez as duas coisas, nunca saberei. Não houve aviso; alguma coisa estalou, alguma coisa rompeu dentro da minha cabeça e nada tinha de feliz.

RICHARD!, gritou a coisa. O QUE ESTÁ FAZENDO? FICOU COMPLETAMENTE LOUCO? Não é uma metáfora que está balançando na platibanda, é VOCÊ! É o seu futuro; se cair, você se torna um ZUMBI, um morto-vivo, deixando o tempo passar até se matar por completo! Está se empenhando em jogos com ela pelo telefone a nove horas. PARA QUE PENSA QUE ESTÁ NESTE PLANETA? PARA PILOTAR AVIÕES? Está aqui, seu filho da puta arrogante, para aprender tudo sobre o AMOR! Ela é sua mestra e dentro de 25 segundos vai desligar, você nunca mais tornará a vê-la! Não fique sentado aí, seu filho da puta idiota! Tem 10 segundos e depois ela se vai! Dois segundos! Fale!

— Leslie, você tem razão. Estou errado. Quero mudar. Tentamos à minha maneira e não deu certo. Vamos tentar agora à sua maneira. Nada de Mulher Perfeita, nada de muralhas contra você. Apenas você e eu. Veremos o que acontece.

Houve silêncio na linha.

— Tem certeza? Está mesmo convencido ou apenas fala por falar, Richard? Porque, se é o segundo caso, só servirá para tornar a situação ainda pior. Sabe disso, não é mesmo?

— Sei, sim. E tenho certeza. Podemos conversar sobre isso?

Outro silêncio.

— É claro que podemos, wookie. Por que não desliga e vem para cá? Tomaremos juntos o café da manhã.

— Está certo, meu bem. Até já.

Depois de desligar, murmurei para o telefone vazio:

— Eu a amo, Leslie Parrish.

Em absoluta privacidade, sem ninguém para ouvir, as palavras que eu tanto desprezara, que nunca usara, soavam tão verdadeiras quanto a luz. Pus o fone no gancho.

— ESTÁ FEITO! — gritei para a sala vazia. — ESTÁ FEITO!

O fugitivo se encontrava outra vez em nossos braços, retirado são e salvo da platibanda. Eu me sentia leve como uma asa delta lançada de uma montanha no verão para a estratosfera.

Há um eu alternativo neste momento, pensei, desviando-se abruptamente, virando para a esquerda na encruzilhada da estrada, quando antes sempre seguia pela direita. Neste momento, num tempo diferente, Richard-então se ligou a Leslie-então, em uma ou dez horas não fazia diferença, pois não teria telefonado para ela se não quisesse que isso acontecesse. O outro largou a carta na cesta de papel, pegou um táxi para o aeroporto, decolou e subiu para nordeste, nivelou a três mil metros e fugiu para Montana. Depois disso, quando o procurei, tudo escureceu.

Trecho de A ponte para o sempre

Noite de quarta-feira, 21/12 Caro Richard:

É muito difícil saber como e por onde começar. Estive pensando por muito tempo e a fundo, através de muitas idéias, tentando encontrar um meio…

Finalmente me ocorreu uma pequena idéia, uma metáfora musical, através da qual pude pensar claramente e encontrar a compreensão, se não mesmo a satisfação. Quero partilhá-la com você. Assim, por favor, peço que me suporte, enquanto passamos por outra lição musical.

A forma mais comumente usada para as grandes obras clássicas é a da sonata. É a base de quase todas as sinfonias e concertos. Consiste de três partes principais: a exposição ou abertura, em que pequenas idéias, temas e miscelâneas diversas são lançados e apresentados uns aos outros; o desenvolvimento, em que essas pequenas idéias e motivos são explorados ao máximo, expandidos, muitas vezes passando de maior (feliz) para melhor (infeliz) e voltando, sendo desenvolvidos e entrelaçados em complexidade maior até que finalmente vem: a recapitulação, em que existe uma reapresentação, uma gloriosa expressão da maturidade plena e rica que as pequenas idéias alcançaram, através do processo de desenvolvimento.

Você pode perguntar como isso se aplica a nós, se ainda não percebeu.

Eu nos vejo embatucados numa abertura interminável. A princípio, foi a coisa real, pura delícia. É a parte de um relacionamento em que a pessoa se mostra em seu melhor: divertida, encantadora, excitada, excitante, interessante, interessada, e um tempo em que a pessoa se sente mais tranqüila e mais cativante, porque não experimenta a necessidade de levantar suas defesas; assim, a parceira aconchega um ser humano afetuoso, ao invés de um cacto gigantesco. É um tempo de prazer para ambos e não é de admirar que você goste tanto de aberturas que se empenhe em tornar a sua vida uma sucessão delas.

Mas os primórdios não podem ser prolongados interminavelmente; não podem simplesmente ser expostos e reexpostos. Devem seguir adiante e se desenvolverem — ou morrer de tédio. Não é bem assim, você diz. Deve se afastar, ter mudanças, outras pessoas, outros lugares, a fim de que possa voltar a um relacionamento, como se fosse novo, para ter constantes princípios novos.

Nós seguimos adiante numa sucessão prolongada de reaberturas. Algumas foram causadas por separações profissionais que eram necessárias, mas se mostraram desnecessariamente duras e rigorosas para duas pessoas tão chegadas como nós. Algumas foram fabricadas por você, a fim de dispor de mais oportunidades de voltar à novidade que tanto deseja.

Obviamente, a parte de desenvolvimento é um anátema para você. Pois é a parte em que você pode descobrir que tudo o que possui é uma coletânea de idéias bastante limitadas que não funcionam, não importa quanta criatividade lhes acrescente, ou — que é ainda pior para você — que tem o material para alguma coisa gloriosa, uma sinfonia, em cujo caso há trabalho a realizar: profundezas devem ser sondadas, entidades separadas cuidadosamente entrelaçadas, o melhor para glorificarem a si mesmas e umas às outras. Suponho que é análogo ao momento de escrever em que não se pode fugir ou não se deve fugir à idéia de um livro.

Não resta a menor dúvida de que fomos muito mais longe do que você jamais tencionou. E paramos pouco antes do que eu considerava como os nossos próximos passos, lógicos e maravilhosos. Tenho testemunhado o desenvolvimento com você continuamente contido, passei a acreditar que nunca faremos mais do que tentativas esporádicas em nosso potencial de aprendizado, em nossas espantosas similaridades de interesses, não importa quantos anos possamos ter — porque nunca teremos um tempo ininterrupto juntos. Assim, torna-se impossível o crescimento que tanto prezamos e sabemos que é possível.

Ambos tivemos uma visão de algo maravilhoso que nos aguarda. Contudo, não podemos chegar lá, a partir do ponto em que nos encontramos. Estou diante de uma sólida muralha de defesas e você tem a necessidade de construir mais e ainda mais. Anseio pela riqueza e plenitude do desenvolvimento adicional e você procurará meios de evitá-lo, enquanto estivermos juntos. Nós dois ficamos frustrados; você é incapaz de voltar, eu sou incapaz de seguir adiante, num estado de luta constante, com nuvens e sombras escuras sobre o tempo limitado que você nos concede.

Sentir a sua constante resistência a mim, ao crescimento desse algo maravilhoso, como se eu e isso fôssemos alguma coisa horrível — experimentar as várias formas que a resistência assume, algumas cruéis — muitas vezes me causa sofrimento, em um nível ou outro.

Tenho um registro de nosso tempo juntos e fiz uma análise profunda e sincera. Entristeceu-me e até mesmo me chocou, mas foi-me útil para enfrentar a verdade. Recordo os dias do princípio de julho e as sete semanas que se seguiram como nosso único período realmente feliz. Isso foi a abertura e foi linda. Depois, houve as separações, com os desligamentos arrebatados e para mim inexplicáveis — e a igualmente terrível evitação-resistência em suas voltas.

Longe e apartados ou juntos e apartados é uma situação por demais infeliz. Estou me observando virar uma criatura que chora muito, uma criatura que até deve chorar muito, pois quase parece que a compaixão é necessária antes que a bondade seja possível. E sei que não cheguei até este ponto da minha vida para me tornar digna de compaixão.

Ser informada que cancelar o seu encontro para me ajudar, quando eu me encontrava em estado de crise, “não daria certo para você”, fez com que a verdade desabasse em cima de mim com a força de uma avalanche. Encarando os fatos tão honestamente quanto me é possível, sei que não posso continuar, não importa o quanto assim deseje; não posso me inclinar ainda mais.

Espero que você não considere isto como o rompimento de um acordo, mas sim como a continuação dos muitos e muitos finais que você tem iniciado. Acho que é uma coisa que ambos devemos saber. Eu devo aceitar que fracassei em meu esforço de fazê-lo conhecer as alegrias da afeição.

Richard, meu precioso amigo, isto é dito suavemente, até mesmo ternamente, com amor. E os tons suaves não servem para camuflar uma raiva por trás; são autênticos. Não há acusações, responsabilidades ou culpas. Estou simplesmente tentando compreender e estancar a dor. Estou enunciando o que fui forçada a aceitar: que você e eu nunca teremos um desenvolvimento, muito menos a gloriosa expressão climática de um relacionamento desenvolvido ao máximo.

Tenho sentido que se alguma coisa em minha vida mereceu um afastamento de padrões anteriormente estabelecidos, indo além de todas as limitações conhecidas, foi justamente o nosso relacionamento. Suponho que poderia estar justificada em me sentir humilhada por todos os meus esforços para que desse certo. Em vez disso, porém, sinto-me orgulhosa de mim mesma e contente por saber que reconheci a rara e maravilhosa oportunidade que desfrutamos enquanto a tivemos. Dei tudo o que eu podia, no sentido mais puro e elevado, a fim de preservá-la. É o que me conforta agora. Neste momento horrível do final, posso sinceramente dizer que não conheço nenhuma outra coisa que poderia fazer para nos levar ao lindo futuro que poderíamos ter.

Apesar do sofrimento, estou feliz por tê-lo conhecido desta maneira especial e sempre guardarei na memória o tempo que passamos juntos. Cresci com você e aprendi muito. Sei também que fiz grandes e positivas contribuições a você. Ambos somos pessoas melhores por havermos entrado em contato.

A esta altura, tão tardia, ocorre-me que uma metáfora do xadrez poderia também ser útil. O xadrez é um jogo em que cada parte possui o seu próprio objetivo singular, mesmo quando se confronta com a outra; um meio do jogo em que se desenvolve e intensifica uma luta, em que se perdem fragmentos de cada lado, ambos ficando reduzidos; e um fim de jogo em que uma parte acua e paralisa a outra.

Creio que você vê a vida como uma partida de xadrez; eu vejo como uma sonata. E por causa dessas diferenças tanto o rei como a rainha são perdidos, a canção é silenciada.

Ainda sou sua amiga, como sei que você também é meu amigo. Envio esta carta com um coração repleto do mais profundo e terno amor, com toda a consideração que tenho por você, como não ignora, além de um imenso pesar por ficar incumprida uma oportunidade tão cheia de promessa, tão rara e tão bela.

Leslie