JotaPêAh!

Diga não às drogas – Luis Fernando Veríssimo

em 25/11/2009 14:47:17

Tudo começou quando eu tinha uns 14 anos e um amigo chegou com aquele papode “experimenta, depois, quando você quiser, é só parar…” e eu fui nadele. Primeiro ele me ofereceu coisa leve, disse que era de “raiz”,”natural” , “da terra”, que não fazia mal, e me deu um inofensivo disco do”Chitãozinho e Xororó” e em seguida um do “Leandro e Leonardo”. Achei legal,coisa bem brasileira; mas a parada foi ficando mais pesada, o consumo cadavez mais freqüente, comecei a chamar todo mundo de “Amigo” e acabeicomprando pela primeira vez.

Lembro que cheguei na loja e pedi: – Me dá um CD do Zezé de Camargo eLuciano. Era o princípio de tudo! Logo resolvi experimentar algo diferente eele me ofereceu um CD de Axé. Ele dizia que era para relaxar; sabe, coisaleve… “Banda Eva”, “Cheiro de Amor”, “Netinho”, etc. Com o tempo, meuamigo foi oferecendo coisas piores: “É o Tchan”, “Companhia do Pagode”, “Asade Águia” e muito mais. Após o uso contínuo eu já não queria mais saber decoisas leves, eu queria algo mais pesado, mais desafiador, que me fizessemexer a bunda como eu nunca havia mexido antes, então, meu “amigo” me deu oque eu queria, um Cd do “Harmonia do Samba”. Minha bunda passou a ser ocentro da minha vida, minha razão de existir. Eu pensava por ela, respiravapor ela, vivia por ela! Mas, depois de muito tempo de consumo, a droga perdeefeito, e você começa a querer cada vez mais, mais, mais . . . Comecei afreqüentar o submundo e correr atrás das paradas. Foi a partir daí quecomeçou a minha decadência. Fui ao show de encontro dos grupos “Karametade”e “Só pra Contrariar”, e até comprei a Caras que tinha o “Rodriguinho” nacapa.

Quando dei por mim, já estava com o cabelo pintado de loiro, minha mão tinhacrescido muito em função do pandeiro, meus polegares já não se mexiam por eupassar o tempo todo fazendo sinais de positivo. Não deu outra: entrei paraum grupo de Pagode. Enquanto vários outros viciados cantavam uma “música”que não dizia nada, eu e mais 12 infelizes dançávamos alguns passinhosensaiados, sorriamos fazíamos sinais combinados. Lembro-me de um dia quandoentrei nas lojas Americanas e pedi a coletânea “As Melhores do Molejão”. Foiterrível!! Eu já não pensava mais!! Meu senso crítico havia sido dissolvidopelas rimas “miseráveis” e letras pouco arrojadas. Meu cérebro estavatravado, não pensava em mais nada. Mas a fase negra ainda estava por vir.Cheguei ao fundo do poço, no limiar da condição humana, quando comecei aescutar “Popozudas”, “Bondes”, “Tigrões”, “Motinhas” e “Tapinhas”. Comecei ater delírios, a dizer coisas sem sentido. Quando saia a noite para as festaspedia tapas na cara e fazia gestos obscenos. Fui cercado por outrosdrogados, usuários das drogas mais estranhas; uns nobres queriam me mostraro “caminho das pedras”, outros extremistas preferiam o “caminho dostemplos”. Minha fraqueza era tanta que estive próximo de sucumbir aosradicais e ser dominado pela droga mais poderosa do mercado: a droga limpa.

Hoje estou internado em uma clínica. Meus verdadeiros amigos fizeram únicacoisa que poderiam ter feito por mim. Meu tratamento está sendo muito duro:doses cavalares de Rock, MPB, Progressivo e Blues. Mas o meu médico falouque é possível que tenham que recorrer ao Jazz e até mesmo a Mozart e Bach.Queria aproveitar a oportunidade e aconselhar as pessoas a não se entregarema esse tipo de droga. Os traficantes só pensam no dinheiro. Eles não sepreocupam com a sua saúde, por isso tapam sua visão para as coisas boas e teoferecem drogas.

Se você não reagir, vai acabar drogado: alienado, inculto, manobrável,consumível, descartável e distante; vai perder as referências e definharmentalmente.

Em vez de encher a cabeça com porcaria, pratique esportes e, na dúvida, senão puder distinguir o que é droga ou não, faça o seguinte: Não ligue a TVno Domingo a tarde; Não escute nada que venha de Goiânia ou do Interior deSão Paulo; Não entre em carros com adesivos “Fui … ”

Se te oferecerem um CD, procure saber se o suspeito foi ao programa da Hebeou se apareceu no Sabadão do Gugu; Mulheres gritando histericamente é outroindício; Não compre nenhum CD que tenha mais de 6 pessoas na capa; Não vá ashows em que os suspeitos façam gestos ensaiados; Não compre nenhum CD que acapa tenha nuvens ao fundo; Não compre qualquer CD que tenha vendido mais de1 milhão de cópias no Brasil; e Não escute nada que o autor não consiga umaconcordância verbal mínima. *Mas, principalmente, duvide de tudo e de todos.* A vida é bela! Eu sei que você consegue! Diga não às drogas.


Uma resposta para “Diga não às drogas – Luis Fernando Veríssimo

  1. carlos eduardo pereira disse:

    Sou imune a essas drogas, escutei muita MPB, rock, coisas tipo Paulinho da Viola, jazz. E proibi de entrar em casa essas drogas pesadas.

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