JotaPêAh!

Trechos do último capítulo de Quase memória, um quase romance de Carlos Heitor Cony

em 13/10/2009 15:30:59

Estou sem fome, apensas cansado. Paro o carro diante de um bar aberto na orla, a essa hora devem servir pizzas ou sanduíches. O calçadão de Copacabana, decadente e vazio, só tem agora alguns travestis que caçam fregueses. Apesar de a noite estar bonita, nem quente nem fria, sinto sordidez na pizza, no calçadão, afinal, eu passara as últimas horas numa viagem pela memória e tudo aqui fora ficou absurdo, irreal. Ou real demais.

Amanhã… amanhã vou guardá-lo, tal como o pai o deixou. Quando digo “amanhã” nesse tom (amanhã…) penso nele quando dizia, cada noite, antes de dormir: “Amanhã farei grandes coisas!” Mesmo quando não fazia nada, para ele o viver, o chegar à outra noite e se prometer que no dia seguinte faria grandes coisas era, em si, uma grande coisa.

A promessa feita a mim mesmo de guardar o embrulho me tranquiliza, já não sinto o cansaço e não gostaria de encerrar esse dia, pudesse, eu o prolongaria, até o infinito da memória.

Estou agora na enseada da Barra, dezoito quilômetros de avenida e mar. De raro em raro passa um carro em sentido contrário, só eu pareço estar indo para algum lugar, embora não tenha para onde ir, nem vontade disso tenho. Vou andando, para onde a noite e o carro me levarem.

Só então reparo que há muito deixei a cidade antiga, o Rio do pai, o Rio que em parte acabou, como as coisas acabam: no fim. Pior: sendo substituído por outro, largo, vertical, sem esquinas onde ele pudesse marcar um encontro, conversar com um desconhecido e assombrá-lo com as coisas que fez, que pensou ter feito ou que achava que iria fazer.

Pior também para mim. Alguma coisa acabou ou está acabando. Cansado ou não, dou-me direito a uma alucinação pessoal: ver o balão que ele fazia, rei de todos os outros reis, silencioso e iluminado, passando por cima deses prédios, destas pistas largas e fosforecentes. Para ele, seria uma bela vingança.

Já a minha vingança – se é que a mereço – é que o pai realizou o que se prometia todos os dias: fazer grandes coisas. Mandou-me uma mensagem que eu não preciso abrir nem ler. Tudo pode ter acabado, menos o pai que continua fazendo coisas – grandes coisas – para deslumbrar o filho, surgindo magicamente entre os túmulos do cemitério com os caramelos, na sacristia da catedral com o prato do botequim enrolado no guardanapo de quadradinhos vermelhos e brancos, tão banal, tão ele, tão grande.

Começa a amanhecer, vejo a primeira fatia de luz cortar a linha do horizonte, lá longe, no mais longe do mar. A sensação agora é que estou sozinho, sobrevivendo de um mundo que acabou. Só não sei, ainda, se eu também acabei.

Mais uma vez ele me tomou pela mão, levou-me para conhecer onde nasce o sol, onde fica a calle Yi, onde estão as linguiças da Calábria trazidas pelo Giordano, capitão de Caporetto, onde estão os troféus dos quais ele esqueceu o nome, onde está dando pulinhos de japonês o Goro que vendia gueixas por novecentos e noventa e nove anos, o Circo Sarraceni, a cara branca do palhaço chorando, e a mandíbula dos jacarés do Pantanal, o Taumaturgo de Urucânia, a moenda triturando a carne das canas e o caldo para ser tomado com sanduíches de salame, e o copo de alumínio com as minhas iniciais onde fazia limonadas, e as mangas do cemitério, o Absalão que talvez nunca tenha existido, e as pedras que tirou do riacho e pintou de azul, o quadro-negro onde esfregou o meu nariz, a pele do jacaré que ficou secando na porta do alpendre onde dormia o Manuel Firme, e a língua afiambrada da Confeitaria Cavê, e a água miraculosa que ele trouxe da fonte Bonifácio VIII para curar a doença do Seu Ministro, e o sermão do padre Júlio Maria que não houve, e a coleção de selos que ele conferia no Yvert, o canivete só lâmina que cortava a pele sem ferir a carne das castanhas do Natal, o balão roxo e branco pendurado em cima da minha cama, e o grande rei, Rei dos Reis, de todos os outros reis, bordado com a rosácea da Notre-Dame, com as cruzes de Lorena, com os corações que ele chamava de copas, com os leões de perfil, dentes à mostra, aquela lanterna colossal e iluminada que todos os anos ele mandava para a noite, e tudo enfim nesta noite que não termina nunca, enseada escura onde a memória é âncora e luz, noite que vai adormecer todas as coisas que ele assinou, mas só por algum tempo, até que chegue o amanhã onde as grandes coisas são feitas.


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